Precisava fechar os livros que os estudantes deixavam abertos na biblioteca. No relógio, seis e meia: a noite começava a despontar. O ônibus passaria às dez para a sete. Tinha vinte minutos para fechar os livros e, de certo modo, calá-los.
Naquela cidade era assim. Raskolnikov e Gregor Samsa discutiam no boteco. Todas as manhãs, Capitu ia para a oficina. Diadorim e Riobaldo dormiam na prisão. Erêndira freqüentava sempre a mesma casa de tolerância.
A biblioteca vivia cheia de gente disposta a reconhecer sua vida.
De repente, alguém bate à porta. Ele corre para ver quem é. É Anna Karênina.
“Por favor, abra a porta! Preciso ver o meu livro.”
“Sinto muito”, ele disse, “a biblioteca já fechou. Volte amanhã às sete”.
“Não, você não entende! Preciso…”, Anna insistiu.
“Não posso abrir exceção. Durante o dia, a biblioteca permanece aberta. É noite e preciso ir descansar, ver minha mulher e filhos… Amanhã, você vê o seu livro”, falou isso se afastando, para dar a entender que não cederia ao apelo de Anna.
Ela juntou as mãos em súplica. O seu olhar era como “O grito”, de Munch. Encostou-se no vidro da porta. Uma lágrima rolou em seu rosto.
“Meu caro bibliotecário, é o fim da linha para mim. Errei demais. Não sei mais o que será de minha vida. Meu amante…” engasgou, pigarreou, continuou a falar: “todos me chamam de maldita! Preciso saber o que será de mim!”.
Ele não sentiu a mínima comoção. Olhou o relógio. Teria de deixar alguns livros abertos. O ônibus logo passaria.
Anna permaneceu ali, à porta. Ele fingia que não via a mulher em prantos. Juntou as coisas, apagou as luzes da biblioteca e saiu. Passou por Anna e disse: “sinto muito! Hoje não. Amanhã, com certeza!”
Anna riu. Não era um riso: era um esgar. “Que amanhã? Que amanhã?”.
Ele se afastou e foi até a parada e sentia um quê de dor na consciência, mas ordens são ordens: devia fechar a biblioteca naquela hora. Anna ficou ali, a uns metros do bibliotecário. Ele pensou “vai acontecer de novo!”. E aconteceu.
O ônibus despontou na esquina, o bibliotecário fez sinal de parada e, pela décima oitava vez naquele ano, Anna Karênina se jogou no asfalto. O pneu esquerdo traseiro do coletivo esmagou a cabeça da mulher, deixando um rastro de sangue e miolos.
O bibliotecário, antes de entrar no ônibus, comentou com o motorista: “isso já tá ficando chato, né?”
O motorista: “eu que o diga, amigo! Eu que o diga!”
F. Campos

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