Talvez eu seja um chato e não reconheça o gênio. Não li “O alquimista”. Não li “O diário de um mago”. Nem “Brida”. Nem “Veronika”. Para não dizer que não li nada, li alguns textos soltos que vinham encartados em uma revista da moda. E não me empolguei.

Ele entrou na ABL. Não me empolguei. Quem perdeu foi a Academia.

Ele vendeu milhões de livros em dezenas de países. Tirou de Jorge Amado a fama de autor brasileiro mais conhecido no mundo. Isso não me emplogou. Os livros de Paulo Coelho soam para mim como catálogos de platitudes. A vontade de não ler Paulo Coelho continua forte. Sou um dos poucos que não leu Paulo Coelho. E eu nem sei que diacho é lenda pessoal!

Para mim, Paulo Coelho é um tremendo marqueteiro. Criou para si um personagem e, em torno dele, criou toda uma mitologia. Bebendo de diversas fontes, usando uma linguagem pseudomística, o “mago” conseguiu prestígio, dinheiro e até respeito. Em um país onde o espiritismo e a astrologia são levados a sério, não é de espantar que muitos têm Paulo Coelho como um guru, alguém que atingiu os píncaros da espiritualidade.

O que se percebe é que ele é muito astuto e inteligente. Sabe o que falar, como falar, quando falar. E, na ânsia de se manter em voga, o parceiro de Raul Seixas expõe sempre novas facetas em sua obra. É um especialista em criar factóides.

O seu novo movimento é o lançamento de sua biografia. “O mago”, de Fernando Morais, narra, com detalhes sórdidos, a trajetória de Paulo Coelho. Na obra, aparentemente tudo sobre o autor de “O alquimista” é contado: sua vida sexual, seu contato com as drogas, sua relação com o diabo, enfim coisas que farão corar os mais carolas. Sabedor de sua própria grandeza, muito seguro de si, Paulo Coelho se deixa esmiuçar, sem medo de chocar. Alguns dirão que se trata de um gesto corajoso. Afinal, Fernando Morais é um escritor de credibilidade: santificou Olga Benário e Prestes, visitou e elogiou a ilha de Fidel, “inventou” o cidadão Kane tupiniquim, Chatô. Portanto, não se prestaria a uma exaltação pura e simples de seu biografado. O nome de Fernando Morais na capa do livro sobre a vida de Paulo Coelho é um plus de investigação séria e aprofundada.  Daí a aura de verdade que jorram dos depoimentos.

Mas é aqui que entra o problema: quanto de real e quanto de mito há na trajetória de Paulo Coelho? Será tudo verdade? Ou será tudo uma lenda? A vida agitada do acadêmico parece talhada para uma produção cinematográfica baseada no trinômio sexo-drogas-rock’n'roll. Acrescente-se satanismo, misticismo, suicídio, orgias, crimes, e temos um livro pronto para ser discutido entre rodadas de cerveja.

Talvez por ter um desconfiômetro sempre ligado no que se refere a Paulo Coelho (e um pouco também quanto à idoneidade literária de Fernando Morais), tenho sinceras dificuldades em engolir a saga do “mago”. Se ler a obra, ficarei sempre com a sensação de estar diante de um embuste. Ou, no máximo, de uma alma que não merece a minha consideração.