Outro dia, tive de levar meu pai a um pronto-socorro público de minha cidade. O que vi? Doentes empilhados, falta de macas, ambiente insalubre, funcionários pressionados, poucos e sobrecarregados médicos. É um retrato corriqueiro da saúde pública do Brasil, infelizmente. Hoje, ao abrir o jornal, me deparei com uma novidade: a cirurgia para a mudança de sexo fará parte da lista de procedimentos do Sistema Único de Saúde (SUS). Ou seja, no país da dengue, da malária, da tuberculose, da hanseníase, do mal de Chagas, o público GLBT vai ter o privilégio de “mudar” de sexo, com verbas que vem do seu, do meu, dos nossos impostos.
A novidade foi anunciada com pompa e circunstância durante a abertura da Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, a primeira, no mundo, organizada por um governo federal. Ou seja, o governo Lula, atento aos clamores do mundo gay, investe o meu suado dinheirinho, que dôo compulsoriamente, para pagar a mudança estética de pessoas insatisfeitas com o próprio corpo. Enquanto isso, os mais pobres que aguardem por horas, e muitas vezes por dias, o atendimento de um médico.
Sabe-se que o processo cirúrgico transexualizador envolve uma equipe multidisciplinar composta por psicólogos, assistentes sociais e médicos endocrinologistas, psiquiatras, urologistas e ginecologistas. E tudo isso será garantido pelo SUS. Como é de se supor, não é um processo barato: para cortar o pingolim de um marmanjo, muita grana vai descer pelo ralo!
A comunidade GLBT se apresenta como uma minoria. Em um país democrático, os direitos das minorias devem ser respeitados. Mas, a partir do momento em que uma minoria é beneficiada em detrimento da maioria, o que seria um direito se torna um privilégio. Os gays e afins têm direito a um atendimento especializado; o povo mais carente, a hospitais e postos de saúde precários. Os transexuais podem trocar de sexo; o seu Zé e a dona Maria têm de aguardar dois meses para serem atendidos por um oftalmologista.
Não é de se estranhar a postura do atual governo. O próprio presidente Lula disse, na abertura da conferência citada acima, que faria o possível para que a criminalização da homofobia e a união civil entre homossexuais seja aprovada. Lula repete o discurso do movimento gay: os preconceituosos devem “arejar e despoluir” a cabeça. O que o nobre estadista esquece é que há outros valores na sociedade além daqueles defendidos pelos gays. E há outras e maiores prioridades.
A democracia é ameaçada quando o gemido de uma minoria é mais ouvido e atendido que o clamor estentórico da maioria.

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