Às vezes é preciso bater de frente, dar a cara a tapa, ficar diante do pelotão de fuzilamento, morrer tentando.

Falta de coragem é padrão de comportamento. As pessoas se calam: não pela falta do que dizer, mas por puro medo. Há sombras estranhas ao redor do imperador. Ele fala e, de sua boca, saltam sagrados perdigotos. O hálito do imperador é enxofre e esgoto.

Não me faço entender?

Talvez não queiras tentar decifrar tão abissal esfinge. E finges ter interesse em outras coisas fabulosamente fúteis. A vida diante de ti e tu te concentras nas rachaduras da parede. O que tens, além de dinheiro e sexo fácil? O que tens, além de livros velhos e idéias mortas? Poderias com teu sonho construir um escaler e resistir ao naufrágio de tuas quimeras, mas preferes estar comodamente sentado construindo um edifício de brisa.

Outro dia, em teu quarto, viste Eleonora. E ela, nua e lânguida, te beijou a face e, descendo a mão, segurou teu falo e te masturbou feito máquina. E gozaste. E abriste os olhos. Estavas só. Um poster de Che Guevara te vigiava. Isso é vida, camarada?

Noite dessas, Eleonora te falou sobre um outro futuro possível, sem prisões, sem silêncios, sem gente te dizendo o que é certo e errado. E, em tua mente, os tiros em Sierra Maestra soavam como sinos da liberdade. Ela disse: não é isso! A liberdade é outra coisa! E o teu medo é justamente esse: ser flagrado em erro, todas as tuas crenças moídas sob as rodas do bom senso. O herói se tornou assassino. Matava a sangue frio em nome do amor. Odiava os inimigos por amor aos amigos. Vigiava os amigos por amor à segurança. Delatava os amigos por uma causa maior.

É isso que queres para Leonora?

Leonora beija a tua boca. E pensas ser grande demais em tua visão de mundo. Não és. Não és. Nunca serás.

Miseravelmente mendigas um pouco de afeto.