Beber, Cair E Levantar – Saia Rodada
Vamos embora, pra um bar,
Beber, cair e levantar. (2x)
Beber, cair e levantar.(Bis)
Cabra safado, cara zoeira,
Só gosta mesmo é de mulher treteira.
Mulher direita o cara não quer
Fica travado e até briga com a mulher.
Eu já tentei mudar pro meu amor
Mas a cachaça me pegou e a farra agora é meu lugar.
Eu já tentei mudar pro meu amor
Mas a cachaça me pegou e a farra agora é meu lugar.
Mas se você quiser me acompanhar eu vou te convidar,
pra ir pra onde…
Vamos embora, pra um bar,
Beber, cair e levantar. (2x)
Beber, cair e levantar.(Bis)
A presente análise visa combater uma afirmação típica das classes burguesas, que consideram tudo o que é popular como desprovido de sentido e significado. A canção “Beber, cair e levantar”, interpretada com garra pelo grupo de forró Saia Rodada, a um primeiro olhar, parece uma ode ao desvario causado pelo vício em álcool, no seu formato cachaça. O eu-lírico da letra seria alguém entregue a uma vida de esbórnia, cuja satisfação está em ir ao bar, consumir uma grande quantidade de aguardente, ter delíquios e, passado o efeito estupefaciente da bebida, se reerguer. A repetição do refrão salienta que tal comportamento é corriqueiro, constante.
Além disso, o eu-lírico explica que, por causa de seu vício, prefere a mulher “treteira” à mulher “direita”, dita virtuosa. Afinal de contas, esta não compreenderia o modus vivendi de quem já está entregue ao vício. Por outro lado, o eu-lírico sabe que, caso insista em viver com a mulher “direita”, a quem ama de fato, poderia magoá-la. Portanto, a sua preferência por mulher “treteira” reside no fato de que, com esta, não há envolvimento emocional e, portanto, o eu-lírico se sente livre para viver a seu modo.
Observe-se que o fato de o eu-lírico ser alguém alcoolizado já o coloca, se olharmos pelo prisma dos padrões burgueses, de fundo moral judaico-cristão, fora do ”caminho certo”. Em outros termos, ele é um indivíduo marginalizado. O fato de freqüentar bares, nos quais se encontram as mulheres treteiras, já clarifica e dá eco à sua marginalidade. Por ser alguém fora dos padrões morais burgueses, o bêbado sofre um processo de guetificação. Sua realidade é o limite do bar e da sarjeta (cair).
A letra de modo indireto e, talvez, não intencional, estabelece um parâmetro entre a mulher treteira e a mulher dita direita. O próprio uso do adjetivo “direita” estabelece o campo no qual esta última vive: à direita da política social. Sua visão de mundo é de direita, conservadora, arraigada em valores morais judaico-cristãos, em uma mentalidade talvez medievalizada. O adjetivo “treteira”, por sua vez, indica alguém que gosta de “treta”. Segundo o Aurélio, “treteiro” é alguém que é dado a estratagemas ou tretas; velhaco, tratante, patife. O que vemos aqui é um processo de vilanização. A mulher direita, de direita, é o bem; à sua esquerda, a mulher “treteira”, que é o mal, pois leva o eu-lírico a continuar preso nas amarras da bebida, da pinga-refúgio, na qual as classes mais oprimidas, especialmente as afro-descendentes, encontram um pouco de lenitivo contra a perversa exploração do regime capitalista.
O fato de o eu-lírico da letra passar mais tempo no bar deixa entrever que, muito provavelmente, ele não tenha casa. A realidade dos sem-teto aparece subjacente a esse “destino”, ou seja, viver no bar. Incapazes de dar um lar decente ao cidadão, os governos capitalistas, mediante propaganda e incentivos pseudoculturais, o empurram para uma vida desregrada, na qual ele fica cego aos problemas de seu mundo. Ignorando o mundo, o cidadão é vítima de leis impostas pelo sistema. Preso ao torpor da bebida, o seu grito não sai da garganta. Atirado na sarjeta, só se reergue para voltar ao vício.
No entanto, o autor da música insiste no verbo “levantar”, como se dissesse ser possível ao eu-lírico se reerguer e tomar para si a própria história. Um novo mundo é possível e pode surgir em uma mesa de bar, na medida em que alcoólatras e mulheres treteiras, de mãos unidas e carregando a bandeira da verdadeira liberdade, marchem rumo à cidade para tomar de volta o que lhes foi roubado.
Eis o sentido profundo dessa música!

1 comment
Comments feed for this article
Junho 20, 2008 às 2:54 pm
katinha
A-D-O-R-E-I sua análise profuuuunda…. Vc sabe, sou sua fã incondicional Professor….
Cada dia aprendo mais e mais……
Tudo a ver, viu?
VC está “Sertíssimo”, lembra??? rsrsrsrsrsrssrsrssr – erro ABOMINÁVEL!!!!KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Bjus,
Katinha