Dessas coisas o Boff não fala...

Dessas coisas o Boff não fala...

 
 

O texto abaixo é de Ênio José Toniolo. E ele fala sobre um mito esquerdista que diz serem os seus expoentes vindos das classes oprimidas. Será verdade? Leia e se deleite!

 

A MENTIRA TEM PERNAS CURTAS

Ênio José Toniolo

A esquerda costuma espalhar o mito de que seus expoentes são operários de salário mínimo, meeiros, bóias-frias, pobres criaturas suburbanas. A direita seria formada de latifundiários, grã-finos, freqüentadores das colunas sociais. Ora, nada mais contrário à realidade dos fatos. E menciono alguns, apenas para comprovar.

 

Iniciemos pelo patriarca da esquerda: Karl Marx casou-se com uma aristocrata alemã, Jenny von Westphalen, descendente, pelo lado materno, da alta aristocracia da Escócia e filha de um nobre.[1] Ela usava nos cartões de visita o título de Baronesa von Westphalen:[2]

 

 

Sra.KARL MARX
nascida baronesa JENNY VON WESTPHALEN

O próprio Marx pouco trabalhou, vivendo às custas das mesadas de seu companheiro de idéias, Friedrich Engels – filho de grande burguês, diz Garaudy.[3] Assim, o Manifesto do partido comunista foi o fruto da colaboração de dois jovens prussianos burgueses, ajudados por uma aristocrata.[4] Engels deu a Marx dinheiro suficiente para viver com folga o resto da vida e até mesmo para que um genro de Marx adquirisse um verdadeiro palacete de trinta aposentos.[5] Dentre os comunistas mais chegados a Marx, praticamente nenhum era proletário no sentido comunista da palavra.[6] Marx não dava muita atenção a seus parentes próximos, porém orgulhava-se dos ricos primos Philips da Holanda – conhecidos fabricantes de eletrodomésticos.[7]
O libertário Pedro Kroptkine pertencia a uma das mais velhas famílias da nobreza russa. Seu pai tinha terras onde ocupava cerca de mil e duzentos trabalhadores, em três províncias russas. Dispunha de cinqüenta criados na residência em Moscou, e vinte e cinco na casa de campo.[8] Também o guerrilheiro Pol Pot nunca trabalhou.[9]
Trotksy era filho de um rico proprietário de terras.[10]

 

Malenkov, como Lenine e outros bolchevistas, era filho de pais abastados.[11]

Mao Tse-Tung não foi diferente: era filho de um próspero agricultor[12], “que logo se tornaria o mais rico de seu vale.”[13]

Caio Prado Júnior era herdeiro de uma das mais abastadas famílias do país – dona de fazendas e indústrias – e fez uma parte de seus estudos secundários na Inglaterra.[14] Morava no “bairro dos ricos autênticos, com tradição e fidalguia”: Higienópolis.[15]

Jean-Paul Sartre costumava andar com um milhão de francos no bolso, na época cerca de 37 salários mínimos brasileiros.[16]

O pai de Fidel Castro era um latifundiário que possuía oitocentos hectares de terras e arrendava outros dez mil.[17] Nunca se soube que o ditador cubano tivesse algum emprego. Seu companheiro Che Guevara confessa: Nenhum dos guerrilheiros que se estabeleceram na Sierra Maestra teve um passado de operário ou camponês, ninguém passou fome, a não ser transitoriamente durante os anos de guerrilha.[18]

Salvador Allende era filho de advogado, neto de médico e descendente de importantes personagens da independência chilena; casou-se com a filha de uma respeitável família e morou sempre nos melhores bairros de Santiago. Nunca disfarçou a inclinação pelos bons vinhos, pratos refinados e coleções de obras de arte. Em seu bem fornido guarda-roupa enfileirava-se uma numerosa coleção de ternos de impecável corte, finos sapatos e duzentas gravatas, sobre as quais usava sempre uma pérola. Pouco exerceu a Medicina, já que foi senador por 25 anos, com mordomias garantidas.[19]

Olof Palme, o ex-primeiro ministro sueco, era “o mais esquerdista dos líderes ocidentais” – mas nascera na classe abastada.[20]

O falecido líder do PC italiano, Enrico Berlinguer, descendia de marqueses catalães, e seu nome figurava no “Livro de Ouro da Nobreza Européia”. Costumava passar as férias na Sardenha natal, onde velejava em seu barco. Ele e o irmão chegaram a possuir uma ilha particular, de 110 hectares.[21] Por outro lado, o senador mais rico da Itália, em 1988, Guido Rossi, pertencia ao Partido Comunista.[22]

Mateotti, o socialista morto pela polícia de Mussolini, era filho de ricos agricultores.[23]

François Mitterrand possuía uma residência em Paris, uma casa na praia, dois pequenos terrenos no campo, além do saldo bancário.[24]

Gabriel García Márquez, grande amigo de Fidel Castro, recebia em 1981, só de direitos autorais, 22 milhões de cruzeiros, cerca de 170 mil dólares por ano.[25] Em entrevista, admitiu que sua obra lhe proporcionava entre 350.000 e 400.000 dólares anuais.[26]

Jorge Amado revela num escrito autobiográfico: Era filho de fazendeiro, assim como vários amigos seus.[27]

A mãe de Olga Benário (amante e talvez esposa de Luís Carlos Prestes) morava na capital da Baviera, em casa elegante, cheia de objetos de arte. O primeiro amante de Olga, Otto Braun, era comunista chique, de gravata meticulosamente amarrada, cabelos ajeitados com brilhantina, calças bem vincadas, e cachimbo aristocrático.[28] Aliás, se alguém procurar a carteira profissional de Prestes vai ter uma surpresa. Parece que sua última ocupação fixa foi ali por 1922, quando era capitão do Exército. O Secretário-Geral do PC gostava só de música clássica.[29]

Ao falecer no Uruguai, João Goulart, latifundário herdeiro de imensa fortuna pessoal,[30] morava numa fazenda de 3.600 hectares, com 6.000 ovelhas e 3.000 cabeças de gado Hereford.[31] Tinha várias outras propriedades, tanto que um seu filho natural, Noé Silveira, recebeu de herança uma fazenda em São Borja, com 2.232 hectares, uma casa, um terreno e boa soma em dinheiro.[32] No final do processo de investigação de paternidade, Noé recebeu metade dos bens da irmã, Denise, avaliados em cem milhões de dólares.[33] No matrimônio de Denise, aliás, houve “o maior banquete de casamento dos últimos anos”.[34] Outro filho, o João Vicente, possuía uma fazenda de 70.000 hectares no Maranhão.[35] A viúva de Jango, Maria Teresa, pôs à venda um sobrado em Punta Del Este, onde o ex-presidente passou parte do seu exílio; a duas quadras da praia, avaliaram-no em 400.000 dólares.[36]

Sérgio Buarque de Holanda foi um jovem bem-nascido que, formado em Direito, teve uma confortável carreira de burocrata à sua espera.[37]

Nosso paranaense Vieira Neto só bebia uísque escocês, fumava cachimbo com fumo inglês e tinha iate em Guaratuba.[38]

 

 

 

[1] STALLYBRASS, Peter. O casaco de Marx: roupas, memória, dor. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 69.
[2] PADOVER, Saul K. Karl Marx: an intimate biography. (Abridged edition). New York: New American Library, 1980. p. 20, 72 , 75 e 271. GIROUD, Françoise. Jenny Marx; ou a mulher do diabo. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 167.
[3] GARAUDY, Roger. Toda a verdade. Rio: Civilização Brasileira, 1970. p. 31. “Conforme seu desejo, foi cremado e as cinzas espalhadas em Eastbourne, um elegante balneário de Sussex, onde ele amava passear. Apenas oito pessoas estavam presentes.” (GIROUD, op. Cit. P. 23)
MAYO, Henry B. Introdução à teoria marxista. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1966. p. 31.

PADOVER, Saul. Op. cit. 94.

“O único período em que Marx teve qualquer emprego fixo foi de 1852 a 1861, quando trabalhou como correspondente do New York Tribune.” (HOOVER, J. Edgar. Estudo sobre o comunismo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1964. p. 34). Boa parte dos artigos foram escritos por Marx, porém assinados por Marx. (GIROUD, op. cit. p. 133)

[4] GIROUD, Françoise. Jenny Marx; ou a mulher do diabo. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 85.

[5] STALLYBRASS, Peter. O casaco de Marx: roupas, memória, dor. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 74, 94 e 289. “(…) Laura e Paul Lafargue compraram uma casa de 35 peças em um parque soberbo, em Draveil.” (GIROUD, op. cit. p. 224)

[6] PADOVER, Saul K. Op. cit. p. 115.

[7] PADOVER, Saul K. Op. cit. p. 7. GIROUD, op. cit. p.115.

[8] KROPOTKINE, P. Em torno de uma vida. Rio de Janeiro: José Olympio, 1946. p. 41.

Increvables anarchistes. Disponível em ; acesso em 20-10-2003.

[9] COURTOIS, Stéphane et alii. O livro negro do comunismo. Rio de Janeiro: Bertrand, 1999. p. 722.

[10] WOOLLEY, Barry. The Darwin/Trotsky connection. Disponível em ; acesso em 16-05-2004.

[11] Morre o stalinista Malenkov. O Estado de São Paulo, 02-02-1988.

[12] CABRAL, Antônio. As revoluções não se fazem com semideuses. O Estado de São Paulo, 07-09-1986.

[13] BOSCOV, Isabela. O maior sanguinário. Veja, nº 1931, p. 124, 16-11-2005.

[14] Veja, nº 1158, p. 44, 28-11-1990,.

[15] GATTAI, Zélia. Anarquistas, graças a Deus. Rio de Janeiro: Record., s/d. p. 13.

[16] Sarte: Auto-retrato aos 70 anos. Manchete, nº 1212, p. 104-111, 12-07-1975.

[17] CHRISTO, Carlos Alberto L. de [Frei Betto]. Fidel e a religião. 15. ed. São Paulo: Brasiliense. p. 96-97.

[18] GUEVARA, Ernesto Che. Textos políticos e sociais. São Paulo: Edições Populares, 1981. p. 95.

[19] A trágica utopia de Allende, o revolucionário. Veja, nº 263, p. 48-49, 19-09-1973.

[20] MACFADEN, Robert D. Aristocrata convertido ao socialismo. O Estado de São Paulo, 02-03-1986, p. 3.

[21] Berlinguer, o “surdomuto”. Veja, nº 405, p. 37-39, 09-06-1976.

[22] AUGELLI, Marielza. Senador mais rico na Itália é do PC. O Estado de São Paulo, 09-03-1988, p. 9.

[23] COLLIER, Richard. Duce! Ascensão e queda de Benito Mussolini. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, s/d. p. 85.

[24] REALI JÚNIOR. Conflito no PS aguarda o gabinete de Rocard. O Estado de São Paulo, 12-03-1988.

[25] EMEDIATO, Luiz Fernando. Pinochet vence. Isso é bom. O Estado de São Paulo, 22-11-1981.

[26] NEPOMUCENO, Eric. Até que caia Pinochet. Veja, São Paulo, nº 625, p. 3, 27-08-1980.

[27] AMADO, Jorge. Navegação de cabotagem. Rio de Janeiro, Record, 1992. p. 469.

[28] MORAIS, Fernando. Olga. 8.ed. São Paulo: Alfa-Ômega, 1986. p. 18.

[29] NATALI, João Batista. Aos 88, Prestes mantém idolatria pela União Soviética. Folha de São Paulo, 04-05-1986. p. 14.

[30] “Como herdeiro de imensa fortuna pessoal e grande proprietário de terras, (…).”(TOLEDO, Caio Navarro de. O governo Goulart e o golpe de 64. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 14).

[31] João Goulart [1918-1976]. Veja, nº 432, 15-12-1976.

[32] Cr$ 3 bilhões para Noé. O Estado de São Paulo, 16-09-1984.

[33] Termina o processo do filho de Jango. O Estado de São Paulo, 17-08-1988.

[34] Gente. Veja, nº 601, p. 12, 12-03-1980.

[35] Filho de Goulart não vai à Assembléia mas recebe. O Estado de São Paulo, 23-05-1986, p. 2.

[36] Radar. Veja, 20-04-2988. p. 39.

[37] Sérgio Buarque de Holanda [1902-1982]. Veja, nº 713, p. 123, 05-05-1982

[38] TOURINHO, Luiz Carlos Pereira. Respingos. Gazeta do Povo, Curitiba, 27-09-1987.

[39] O Estado de São Paulo, 26-11-1987.

[40] Gazeta do Povo, Curitiba, 17-09-1979.

[41] Radar. Veja, nº 599, p. 23, 27-02-1980.

[42] GOERTZEL, Ted. Still a Marxist. Disponível em Acesso em 03-10-2003.

[43] Perspectivas do governo Lula. Revista Enfrentamento, nº 1, fev. 2003. Disponível em ; acesso em 07-10-2003.

[44] HENRIQUES, LUIZ Sérgio. As idéias fora do lugar. Disponível em ; acesso em 07-10-2003.

[45] Depoimento. Língua e Literatura. São Paulo, v. 10-13, p. 168-169, 1981-84, (Número comemorativo).

[46] Idem, p165.

[47] ALENCASTRO, Cid. Mais um violento golpe contra a propriedade agrária. Catolicismo, fevereiro 2003. Disponível em < http://www.tfp.org.br/Secoes/Colunas/Cid/2003/02/01/RefAgraria-FHC-Kerenski/RA-Kerensky.htm>; acesso em 15-10-2003.

[48] Marta, feminista e “brigadora”. O Estado de São Paulo, 15-11-1985.

[49] Veja, 04-12-2002.

[50] ROLDO, Deonilson. Bisol emprega agricultores sem carteira assinada. Folha de São Paulo, 26-11-1989, p. B-4; O Estado de São Paulo, 26-08-1989.

[51] Fazendas de Brizola no Uruguai valem US$ 2 mi. Jornal do Norte, Apucarana, 03-09-1989. p. 3.

[52] O Estado de São Paulo, 06-07-1982.

[53] O Estado de São Paulo, 26-08-1989.

[54] Mais detalhes sobre sua fortuna em Veja, 07-11-2001, ou no site: http://veja.abril.com.br/071101/p_042.html

[55] NUNES, Thayana de Almeida. FSM: Um outro mundo é possível. Littera, Londrina, nº 3, p. 5, fevereiro de2003. O jornal comunista A Classe Operária cita dados até mais vultosos: “O último FSM contou com mais de 100 mil participantes, de 156 países e 5.717 organizações.” (PRESTES, Ana Maria. O Brasil te espera em Belo Horizonte. Disponível em ; acesso em 08-11-2003)