É uma leitura. E, como toda leitura, existe para ser contestada. Mas ela não nasceu por acaso.
As telenovelas brasileiras são famosas por difundirem modismos e por refletirem temas candentes de nossa realidade. Algumas até acabam gerando pautas de discussão. Uma novela como “Escalada”, por exemplo, colocou na casa das pessoas a discussão sobre a legalização do divórcio, numa época em que isso era proibido. Muitos dizem que as novelas alienam as pessoas, mas, em uma análise mais profunda, podemos ver que elas nada mais são que reflexos do estado de espírito do brasileiro. Mais do que histórias água-com-açúcar e fantasiosas, as telenovelas mostram, muitas vezes sutilmente, uma leitura da situação do país. É o caso de grandes sucessos como “Saramandaia”, “O bem amado”, “Pecado capital”, “Vale tudo”, “Roque Santeiro”, “Gabriela”, “Pátria minha” etc.
No caso de “A favorita”, novela de João Emanuel Carneiro, temos alguns personagens interessantes: Romildo Rosa, o epítome de um certo tipo de político brasileiro; Ariovaldo Copola, o velho comunista, pintado em cores ternas pelo autor; Orlandinho, um gay recém-assumido; Halley, um malandro de bom coração; Dodi, um malandro de má índole; Leonardo, um operário que bate na esposa; Maria do Céu, uma alpinista social; Cilene, uma cafetina; etc. São personagens que, de modo estereotipado, criam uma paisagem variada da sociedade brasileira. O autor se permite a algumas subversões: a família Rosa é formada por negros e é muito rica, por causa das falcatruas do seu patriarca; o operário Leonardo é um monstro insensível e sua violência não é justificada; as prostitutas da casa de Cilene são bem resolvidas e até felizes; a rica Donatela é a mocinha, enquanto que a “pobre” Flora é a grande vilã da trama, uma Hannibal Lecter de saias.
É aqui que entra a minha teoria: na relação entre Flora e Donatela.
Na paleta do autor, o ódio de Flora por Donatela é justificado pelo fato de esta ser sempre “a favorita”. Donatela sempre superou Flora: em casa, era mais querida pelo pai de Flora; na dupla sertaneja, tinha mais carisma; no amor, ficou com o melhor partido, Marcelo Fontini; e, após a morte deste, cuidou da filha dele com Flora. Nos dias de hoje, Lara, a filha de Flora, ama Donatela como se ela fosse a sua mãe de verdade. Como se vê, um dramalhão que faz jus à música de abertura: um tango eletrônico do grupo Bajofondo. Mas uma outra leitura é possível.
No início da novela, a maior parcela do público torcia por Flora. A sua versão dos fatos parecia mais verossímil. Seu ar sofrido, sua postura sempre tranqüila e seu modo de se portar contrastavam com Donatela, uma mulher rica, fútil e casada com um canalha, Dodi. Ao saber da libertação de sua inimiga, Donatela passou a vigiá-la, o que aumentou as suspeitas do público sobre a personalidade da ricaça. O autor, usando o recurso da elipse e se negando a mostrar os fatos passados, construiu um confronto no qual aparentemente havia uma oprimida e uma opressora. Com o tempo, o autor foi desmontando o que havia construído no começo: Donatela não era tão má assim; Flora não era tão honesta quanto parecia. Em pouco tempo, o público já não sabia para quem torcer.
Em um capítulo decisivo, o autor revelou os fatos: Flora é verdadeiramente uma assassina. E Donatela, vítima de uma armadilha, perdeu a sua liberdade. É precisamente nessa reviravolta que está a minha teoria.
Olhemos para a história recente do Brasil.
Durante anos vivemos sob a chamada “ditadura militar”. Em 1964, os militares tomaram o poder no Brasil. Os livros de história dizem que o governo militar instaurou um regime violento, marcado por perseguições, torturas e censura. Hoje se alardeia que alguns “heróis” lutaram em defesa da democracia. E alguns até pagaram com a vida por isso. Outros foram exilados. Alguns foram presos. Uns até mudaram de rosto e de identidade.
Os que sobreviveram aos “anos de chumbo” estão muito bem hoje; alguns até receberam gordas indenizações. Presidentes como Costa e Silva, Médici e Geisel são, em maior ou menor grau, demonizados nos dias de hoje. E isso é ensinado nas escolas, nas universidades e alardeado na voz dos artistas “engajados”.
Ao que parece, os “heróis” que resistiram à “ditadura militar” foram perseguidos injustamente. E o governo militar, como um monstro assassino, cometeu as piores atrocidades. Os “heróis” queriam a democracia. Os militares, o controle absoluto.
O que os livros escondem, ou disfarçam, é que os “heróis” queriam implantar no Brasil um regime semelhante ao cubano, ou seja, o comunismo, sob cuja bandeira mais de cem milhões de pessoas foram mortas só no século XX. Algo como os gulags soviéticos, os paredóns cubanos e o grande salto chinês de Mao Tse-Tung seria implantado em nosso país tropical, se os militares não tivessem agido naquele aziago ano de 1964. Esconde-se também que, na luta pela defesa desses ideais, os “heróis” recorriam a métodos violentos: seqüestros, assaltos, atentados a bomba, assassinatos. Em suas ações, muitos civis terminavam feridos ou mortos. O atentado do aeroporto de Guararapes, no Recife, em 1966 e o ataque ao quartel-general do II Exército em São Paulo, em junho de 1969, são fatos incontestáveis: os “heróis” estavam dispostos a matar. Como um governo reage a uma ação terrorista? Com repressão, é lógico. E cumpre dizer que boa parte desses “mocinhos” recebeu treinamento em Cuba, e eles conheciam táticas de guerrilhas, sabiam manusear e fabricar armas e explosivos, entre outras coisas. Em termos menos gentis, eram terroristas.
Alguém pode afirmar que a reação militar foi desproporcional; mas, se o rato sabe de sua fraqueza, por que ousa desafiar o leão? O governo militar reagiu à agressão dos terroristas.
Hoje os terroristas de ontem estão no poder. E os militares da época são pintados como seres insensíveis e assassinos. Naqueles terroristas eu vejo a Flora, interpretada por Patrícia Pillar.
Assim como Flora, os terroristas de ontem distorcem a história, de modo a extrair uma realidade que lhes seja mais palatável. Para isso, suprimem fatos, mudam as palavras e transformam em vilão quem os combateu. Consideram-se inocentes e vítimas. E colocam a sua dor como merecedora de toda a compaixão do mundo. Em outros termos, sofrem de um tanto de sociopatia, são ególatras, e parecem não ter consciência moral.
Os militares, que salvaram o país de um mal maior, agora são obrigados a ficar escondidos em suas casernas. Como Donatela, têm de ficar pelos cantos, fingindo-se de mortos.
Em algum momento, torcemos por Flora, pois não sabíamos da inteireza dos fatos. Do mesmo modo, aprendemos por intermédio de uns “iluminados” que o regime militar foi uma ditadura, e que os terroristas nada mais eram que guerreiros da liberdade. É fato que, entre eles, houve muita bucha de canhão, muitos inocentes que abraçaram sem conhecer a fundo um ideal criminoso. Mas isso não retira o sangue de suas mãos.
Não podemos persistir no erro. Sabemos quem são os que desprezam a vida, os que mentem. É hora de empurrá-los para o gulag do esquecimento.


2 comments
Comments feed for this article
Fevereiro 21, 2009 às 2:20 pm
Mariana
Qualquer história parcial é injusta. A ditadura existiu em um período mundial de ditaduras e não importa muito quem é que a aplicou. Ditadura, sendo de direita ou de esquerda, é sempre um governo horrível e cruel. Se tivéssemos vivido uma ditadura de esquerda, ela teria sido tão ruim quanto a ditadura militar que vivemos.
Sim, existiam os militantes radicais que queriam implantar tal ditadura de esquerda aqui no Brasil. Sim, os militares os combateram. Mas combateram também os militantes não-radicais que lutavam – simplesmente – por liberdade e por justiça social. E os militares também combateram gente que não lutava por nada disso, mas que ousava pensar diferente deles.
Sim, os guerrilheiros realizaram atos terroristas. Mas, lembre-se de que os mortos que eles fizeram foram poucos perto do massacre realizado pelos militares! Convenhamos, assassinos existiram nos dois lados, mas muito mais dentro do aparato repressivo formado pelos militares!
Devo retificar que os que lutaram pelos ideais de liberdade e de justiça social não são “ratos”, como vc mencionou. Ingênuos, talvez, mas ratos não. Comparar a ditadura com um leão, também, convenhamos… ela estava mais para um bando de hienas.
Gostaria de lembrar que os que estão no poder hoje não são esses que lutaram, um dia, pelos ideais de liberdade e de justiça social. Os que estão no poder hoje, infelizmente, são os que fugiram no momento certo, os que delataram companheiros ou os que lutaram sem convicção. São os que se aliaram ao governo autoritário de então. Os que lutavam por “modismo”.
Se vc quer saber, mesmo, onde estão os que, de fato, fizeram algo pelos ideais de liberdade e de justiça social, veja o livro de Alípio Freire, Izaías Almada e J. A. de Granville Ponce “Tiradentes, um presídio da ditadura: memórias de presos políticos”. Ali, vc vai ver onde estão alguns que lutaram por esses ideais. Muitos continuaram lutando como podem. Muitos estão em universidades e não na mamata do governo, como vc faz supor.
Sobre os erros cometidos pelos guerrilheiros (que vc chama terroristas, embora admitindo que a extensão do estrago causado por eles tenha sido pequena, perto dos militares), o erro deles não permite o esquecimento do fato de que os militares foram, sim, assassinos cruéis. E com um agravante: seus crimes não foram divulgados na mídia de então, como eram os crimes dos militantes de esquerda (com o intuito único de apavorar a população… que pensaria essa população se soubesse o que os militares faziam nos porões…)
É claro que, assim como os militares fizeram (apagar os vestígios que revelariam seus crimes), hje os poderosos também fazem. Vai ser sempre assim, e é por isso que é preciso estar atento. Não creia que se outros políticos governassem hje, vc estaria livre dessa necessidade de atenção. Como diz Eça de Queiroz, os políticos precisam ser sempre trocados, pelo mesmo motivo porque as fraldas também o são. É uma questão humana. O ser humano é propenso a falhas.
E é por isso que eu estranho, e muito, o seu destaque as duas “mocinhas” da novela: à Flora e à Donatela. Obviamente elas são opostas e claramente definidas: uma é a personificação do mal e a outra é a personificação do bem. Tudo muito mentiroso, assim como a comparação entre a novela e a história política nacional que vc fez.
Aliás, se queria comparar essas duas coisas, a novela e a história política recente, eu me pergunto por que vc não resolveu citar uma outra personagem da novela muito mais pertinente: a personagem de Giulia Gam, que mais verdadeiramente traduz a essência humana do que as outras duas que vc selecionou. Essa personagem traduz, mais fielmente, o que são hoje muitos do que lutaram um dia pelos ideais de liberdade e de justiça social: pessoas com uma história de vida marcada por prisões, pelo contato familiar precário, pelo vivência de um presente extremamente marcado pelo passado, pessoas que transitaram entre as duas margens do que a sociedade considera “bom” e “mau”.
E me pergunto: por que é que vc não falou dela? Ser á que é porque vc preferiu reproduzir o que o governo atual tem feito, ou seja, contar só uma parte da história humana? A parte que diz que só existem Floras e Donatelas? A parte que omite personagens dúbias como essa que, inclusive, tem dois nomes?
Não ajude a reproduzir a mentira da versão única dos fatos. Vc pode e deve ver que em uma história sempre existem muitas versões.
Agosto 2, 2009 às 3:02 pm
Marcelo de Brito
Olá!
Gostei muito do texto “Identificando um Esquerdista”. Excelente, de fato!
Gostaria de saber sua opinião sobre um fenômeno que noto nos esquerdistas: Por quais motivos as esquerdas cultivam o ódio em relação à classe média?
Por exemplo, é frequente vermos o presidente Lula jogar os pobres contra a classe média e os ricos. Não entendo essa prática, pois, na minha concepção, os pobres gostariam de ascender à classe média e de ter um padrão de vida razoável.
É a classe média o estrato social que mais paga impostos no Brasil, portanto é ela que provê o dinheiro para que o governo possa implementar os mais variados programas, como, por exemplo, o Bolsa Família. É a classe média que sustenta esse auxílio aos pobres e não entendo o motivo de a esquerda ter esse ódio direcionado à ela.
Se possível, gostaria de saber sua opinião sobre esse assunto.
Até!
Marcelo