O grande pecado de Adão e Eva foi a desobediência

O grande pecado de Adão e Eva foi a desobediência

O programa “A tarde é sua”, de Sônia Abrão, abriu espaço para as declarações do ex-padre Osiel Luiz dos Santos, de Goiânia, casado desde 1988 e pai de cinco filhas. Acostumado à incontinência verbal da apresentadora, não me surpreendi quando a dita defendeu com afinco as posições do ex-padre. A Igreja, como de costume, surge como a vilã da história, a intolerante, a inquisidora. Assim tem sido o enfoque da maior parte da imprensa: dar espaço para o ex-padre e pintar a Arquidiocese de Goiânia como intransigente. É incrível como, em questões assim, alguns jornalistas se tornam especialistas em Catolicismo. E, de antemão, escolhem o um lado, no caso, o de Osiel Santos, que não conseguiu manter os seus votos.

Sim, Osiel não manteve os votos, que são, antes de tudo, resultados de uma escolha. A vida sacerdotal é um chamado. Aceita-se ou não. Ninguém é forçado a se tornar padre. Mas, ao se optar por essa vida, o cristão tem de cumprir algumas exigências. O celibato, a castidade e a obediência são algumas delas. Como se vê, Osiel não cumpriu as promessas que fez quando de sua consagração sacerdotal. Casou-se, rompeu com a castidade, e se tornou desobediente, pois, à revelia da Arquidiocese, continuou a ministrar os sacramentos, como se estes fossem dissociados da Igreja. Ao ministrar batismos e casamentos, tomando como justificativa o discurso de que a Deus pertencem tais sacramentos, o ex-padre dissocia Jesus de Sua Igreja. Em outros termos, afirma que Jesus não é a Cabeça do Corpo, que é a Sua Igreja, fundada sob a pedra, que é Pedro, a quem Jesus deu as chaves do céu, ou seja, a autoridade para ligar ou desligar, na terra como no céu. Osiel, por sua desobediência às exigências do sacerdócio, foi desligado de suas funções. Sua insistência em exercer funções concernentes ao sacerdócio, mesmo tendo constituído família, é, pois, um escândalo.

Há vários ex-padres. Alguns abandonaram o Catolicismo e abraçaram outras doutrinas. Outros permanecem no redil, vivendo com dignidade. A verdade é que a Igreja não expulsa quem abandona a vida religiosa; como Mãe que é, não deixa ao largo os seus filhos. Exige, apenas, uma vida santa, segundo os ditames do Evangelho. O problema de Osiel é que ele quer permanecer casado e exercer o sacerdócio, o que é incompatível com as regras do Catolicismo. Não adianta, como Osiel alardeou no programa de TV, ter apoio popular para a sua causa. A Igreja não é democrática. Ela é hierárquica e suas decisões não são tomadas a partir da voz das urnas.

A Igreja é um Corpo. Jesus é a Cabeça. A democracia pode funcionar como sistema político, mas, na religião cristã, é impraticável. Jesus é a Verdade. E é Verdade Eterna. Em tempos relativistas como os atuais, muitos crêem que a Igreja deve se adaptar à realidade, que ela é retrógrada, e deve se modernizar. Mas, mesmo sendo feita de homens, a Igreja, em sua essência, é divina, visto que fundada por Jesus. E, sendo divina, é santa. E a santidade não está presa aos conceitos da contemporaneidade.

Ao falarmos de Jesus, falamos do que é eterno. E o eterno não muda.

O que Osiel prega, no fundo, é que o eterno seja subjugado pelo transitório. Cheio das idéias da teologia da libertação, esse ex-padre sugere um rompimento com o Magistério da Igreja e apóia uma igreja popular, democrática, sem hierarquia. Grosso modo, quer uma igreja socialista. E, em sua visão, a hierarquia católica surge como o opressor e ele, um padre afastado de suas funções, como o oprimido. Eis a luta de classes. Osiel pretende uma igreja reformada, o que é um absurdo, uma vez que não se pode reformar o eterno.

O caso do ex-padre Osiel nos mostra o quanto o catecismo é desconhecido para muitos que se dizem católicos. É de minha opinião que o Concílio Vaticano II trouxe, junto com o tal aggiornamento, um afrouxamento brutal da catequese. Idéias que antes eram combatidas pelo Catolicismo entraram furtivamente na pregação de vários religiosos. Muitas mentiras contra a Igreja (a Inquisição, por exemplo) foram abraçadas por muitos católicos como se verdade fossem. Lentamente a Igreja foi colocada como culpada pelos grandes males do mundo. E o ex-padre Osiel se aproveita dessas brechas para vender o seu peixe estragado. E com isso ministra sacramentos, e os considera válidos, como se uma maçã pudesse surgir no ar, sem estar ligada aos galhos da macieira.

Eis o cerne da discussão: Osiel é uma vítima do relativismo de nossos tempos. Cego por discursos anticatólicos, tenta conduzir outros cegos. Para ele, o eterno, a cruz sempre firme do Catolicismo, é apenas e tão-somente uma leitura fundamentalista do Evangelho. Por isso age e fala tolices com uma empáfia dos ignorantes. Pobre Osiel! Foi padre, mas, ao que tudo indica, jamais foi verdadeiramente católico.