Muitos incensam Marcos Bagno, uma das vacas sagradas da educação brasileira. O texto a seguir visa justamente lançar questionamentos sobre as idéias de tão ilustre pensador… É um texto longo. Mas bastante interessante!

 

Preconceito lingüístico

por Jerônimo de la Escosura em 16 de outubro de 2002

Intitula-se “Preconceito lingüístico”um opúsculo de Marcos Bagno, professor de Lingüística da USP, que nele pretende invalidar o que reputa encarnarem oito mitos concernentes ao português no Brasil e que proclama como forma pior de preconceito em termos de idioma, o conjunto de prescrições de que se constitui a gramática tradicional, que, segundo a autor, representa um instrumento ideológico de legitimação das classes dominantes no poder.

Cuida-se de mais uma porcaria ideológica, de intuito confessadamente político, em que o autor não trata do tema como cientista em busca da verdade, porém na condição de ativista que emprega o conhecimento para desautorizar as regras do idioma em sua forma culta, em seu lugar enaltecendo o seu uso vulgar.

Segundo o livro, inexiste erro de português porque todo falante da sua língua materna, por natureza usa-o corretamente, na medida em que este uso é necessariamente inteligível.  O erro achar-se-ia na discrepância entre o uso e as regras da gramática que, segundo o prof. Bagno, encarnam algo arcaico, carecedor de imediatamente dobrar-se à forma como fala o povo e que representa o prolongamento do colonialismo português. (Aliás, o prof. Bagno recomenda expressamente que se associe a gramática ao colonialismo luso, fomentando dois preconceitos, um de natureza idiomática e outro, que leva os  brasileiros incautos a repudiarem as nossas origens históricas, à semelhança do filho que, revoltado contra o seu pai, renega o próprio sangue).

O autor não percebe que se a gramática inclinar-se à fala coloquial, não haverá mais regra que as pessoas devam seguir para entenderem-se dentro de um critério homogêneo, desde que cada qual tornar-se-á livre para falar a seu modo e constituir a sua gramática pessoal. Tudo vale, ensina o prof. Bagno. Logo, valem todas as simplificações, as perdas das preposições, a abolição dos plurais (“as duas máquina está parada”,   “veio muitas pessoa”), a confusão dos tempos verbais, as gírias, o desleixo, a lei do menor esforço, a preguiça, os modismos, os estrangeirismos.

É lindíssimo pregar-se aos oprimidos que a gramática não presta porque os oprime e que, livrando-se dela, livram-se de uma parte da sua opressão, tanto quanto é odioso convencer-se os ignorantes de que a ignorância corresponde a um estado normal  e não a um mal por erradicar.

Quando se trata de língua, prevalece a quantidade, ensina o mesmo lente: se no Brasil há maior população do que em Portugal, o critério do idioma pertence por óbvio ao primeiro, em nada importando o nível de escolaridade do povo, a presença do hábito da leitura, o zelo pelo idioma, lá muito mais intensos do que cá. Se a qualidade é irrelevante, para o Sr. Bagno muitos ignorantes equivalem a um culto e o desempenho idiomático de um povo de baixa escolaridade e avesso ao livro é culturalmente superior ao de um que estuda e que lê muito mais do que o anterior. Assim é que o marxismo militante inverte valores e cria o preconceito contra a forma culta do idioma. Que inverta valores, não admira: é a própria essência do gramscismo.

No livro em foco são muitas as falsas generalizações, os primarismos, as mistificações, os absurdos, como o de que entre o português luso e o nosso há de comum apenas a escrita formal, fora dela não nos entendendo eles e não os entendendo nós a eles, falsidade que, corroborando a distinção falaciosa entre o “nosso” português e o “deles”, serve para legitimar todas as distorções que sofra a língua entre nós. Afinal, temos que proclamar a nossa independência lingüística, doutrina o prof. Bagno e as mudanças idiomáticas são fenômenos, lá diz ele, assim como a lepra e a sida (“aids”) também o são, cá digo eu.

Quem o leia com algum senso crítico, atina logo no quão pouco inteligente o livro é. No entanto, com todo o seu primarismo, vem ele vem conhecendo um êxito estrondoso, nos mais de cinqüenta mil exemplares já vendidos, graças, certamente, à lavagem cerebral  com que a revolução gramsciana embruteceu a inteligência nacional.

Ele aconselha os professores a lançarem dúvidas na mente dos seus alunos quanto à validade da gramática. Por que os estudantes iriam desperdiçar tempo em aprender e aplicar regras que os próprios docentes reputam duvidosas e verberam como indesejáveis? Tudo vale, diz o prof. Bagno: logo, vale tudo.

Se alguém suspeitar de que com isto abriu-se o caminho à anarquia e aos guetos lingüísticos, acertou em cheio: o prof. Bagno confessa preferir a barbárie do cada um por si, ao regramento da norma culta, graças ao qual,  havendo homogeneidade de expressão, have-la-á também de compreensão.

Outro dos livros do mesmo escritor, “Dramática da língua portuguesa”, ele o redatou em “tom marcadamente engajado, militante mesmo”, propondo um novo senso comum lingüístico, que rompa com a ordem estabelecida. Como o precedente, não é livro de ciência: é um panfleto político, que leva a sério somente quem quiser.

O resultado tudo isto só pode ser o do espetáculo atual da decomposição do idioma, em que o brasileiro sabe-o mal  porque  falte-lhe escolarização e  leitura, e porque quando lê, lê obras como as que citei, capazes de em poucos anos corromper uma herança cultural que levou séculos a formar-se, motivo porque considero as doutrinas do Sr. Bagno destruidoras e detestáveis.

 

I-   Considerações gerais.

II-   Exemplos da miséria.

III-  O terrorismo pedagógico.

IV-  O decálogo da falácia.

V-  As razões do êxito.

VI- Uma interrogação

 

Considerações gerais

O opúsculo intitulado “Preconceito lingüístico” pretende invalidar o que reputa  oito mitos concernentes ao português no Brasil e proclama como forma pior de preconceito em termos de idioma, o conjunto de prescrições de que se constitui a gramática tradicional, que, segundo o seu autor, representa um instrumento ideológico de legitimação das classes dominantes no poder.

Cuida-se de mais uma porcaria ideológica, de intuito confessadamente político, em que o autor não trata do tema como cientista em busca da verdade, porém na condição de ativista que emprega o conhecimento para desautorizar as regras do idioma em sua forma culta, em  lugar deles enaltecendo-lhe o  uso vulgar.

Segundo o livro, inexiste erro de português, haja vista que todo falante da sua língua materna, por natureza usa-a corretamente, na medida em que este uso é necessariamente inteligível.  O erro achar-se-ia na discrepância entre a utilização e as regras da gramática que, segundo o prof. Bagno, representam o prolongamento do colonialismo português e encarnam algo obsoleto, carecedor de imediatamente dobrar-se à fala  coloquial.

Ora, se a gramática inclinar-se à expressão vulgar, não haverá mais regra que as pessoas devam seguir para entenderem-se dentro de um critério homogêneo, desde que cada qual tornar-se-á livre para exprimir-se a seu modo e constituir a sua gramática pessoal. Tudo vale, ensina o livro. Logo, valem todas as simplificações, as perdas das preposições, a abolição dos plurais ( “as duas máquina está parada”,  “veio muitas pessoa”), a confusão dos tempos verbais, as gírias, o desleixo, a lei do menor esforço, a preguiça, os modismos, os estrangeirismos.

É lindíssimo pregar-se aos oprimidos que a gramática não presta porque os oprime e que, livrando-se dela, libertam-se de uma parte da sua opressão, tanto quanto é odioso persuadir-se aos desinstruídos de que a ignorância corresponde a um estado normal do ser humano e não a um mal por erradicar.

Exemplos da miséria

No livro em análise abundam as falsas generalizações, os primarismos, as mistificações, as irracionalidades, mesmo certos absurdos flagrantes, de que passo a mencionar alguns, colhidos ao acaso, ilustrativos da  miséria intelectual  porque se distingue ele:

1) Dedicado aos supostos mitos de que os brasileiros “não sabem português” e de que  em Portugal apenas fala-se bem o vernáculo, pretende o capítulo segundo persuadir o leitor de que a forma brasileira da língua portuguesa equivale em qualidade à sua análoga de além-mar, ou seja, de que ela é intrinsecamente tão boa quanto esta.

Como argumentos em favor desta tese, o livro invoca, na página 31, a preeminência territorial e demográfica do Brasil em face de Portugal, bem como a sua maior relevância político-econômica, em âmbito internacional.

Ou seja, o português falado no Brasil seria comparável em qualidade ao lusitano por existir em um país maior, mais populoso, mais rico e mais poderoso do que Portugal. Aos olhos de “Preconceito lingüístico”, o critério decisivo repousa no da quantidade de povo, de riqueza, de poder e de extensão, elementos apenas muito secundariamente associados à qualidade de qualquer idioma, ao mesmo tempo em que, para a aferição da qualidade do nosso português, em nada ele considera aquilo que diretamente condiciona o desempenho lingüístico de qualquer povo: o seu grau de escolaridade, de instrução e de cultura, a presença do hábito da leitura e o zelo pelo idioma, fatores todos três de longe mais intensos em Portugal do que entre nós.

Ora, se o desempenho idiomático dos brasileiros equivale ao dos portugueses, então a incultura e a cultura tornam-se sinônimas, uma multidão de indivíduos desinstruídos vale tanto quanto um culto; um povo leitor, estudado e zeloso do seu falar e do seu escrever rebaixa-se ao nível  de um que não lê, estuda pouco e em nada se esmera ao falar nem ao escrever. São os méritos da incultura, graças aos quais o “Preconceito lingüístico” inverte valores e cria o preconceito contra a forma culta do idioma e desvaloriza quem a adota. Quando menos, fomenta um arrogante desprezo por ela e um sentido de parificação cultural entre realidades qualitativamente desiguais ao extremo, o que traduz a perda do sentido de realidade, a incapacidade de discernir o mérito do seu contrário e suscita um novo preconceito, contrário ao julgamento das coisas segundo a sua qualidade intrínseca. O bom e o mau, o medíocre e o elevado, o esmerado e o negligenciado passam a equivaler-se, o que implica a desvalorização extrema de qualquer esforço pessoal e social de aprimoramento, o que reputo profundamente degradante, socialmente funesto e pessoalmente mediocrizador.

A tese em apreço  revela já um traço permanente do livro: a sua completa indiferença pela instrução dos brasileiros.  Afinal, se saber menos é tão meritório quanto saber mais, mal não há em que quem sabe menos, continue assim.

2) Entre o português luso e o nosso há em comum apenas a escrita formal (página 25), fora dela não nos entendendo os portugueses e não os entendendo nós a eles, falsidade que, corroborando a distinção falaciosa entre o “nosso” português e o “deles”, serve para legitimar todas as distorções que sofra a língua entre nós. Afinal, temos que proclamar a nossa independência lingüística, doutrina o livro, ao mesmo tempo em que as mudanças idiomáticas são fenômenos, lá diz ele, assim como a lepra e a sida (“aids”) também o são, cá digo eu, vale dizer, os fenômenos lingüísticos não são  positivos por inerência.

Assim como as enfermidades encarnam acontecimentos negativos, que a ação humana busca evitar ou eliminar, de igual modo representa um fenômeno negativo a deterioração do idioma a que há décadas se assiste no Brasil (para a qual o combate aos tais “preconceitos lingüísticos” presta um serviço impagável), deterioração que o livro lindamente enfarpela de evolução própria do português no Brasil.

Entre o português daqui e o e Portugal mais não há mais diferença  do que a de duas modalidades equivalentes no uso de um mesmo idioma, o que absolutamente não autonomiza a forma brasileira em língua própria nem a torna qualitativamente comparável à lusitana. Asserir em contrário é apenas um modo de justificarem-se todas as modificações idiomáticas, desde, claro, que provenham elas das “vítimas” dos  tais “preconceitos”.

3) Lê-se na página 39: “Ora, não é a “língua” que tem armadilhas, mas sim a gramática normativa tradicional, que as inventa precisamente para  justificar sua existência e para nos convencer de que ela é indispensável” (itálico do original).

Corresponde a  gramática normativa tradicional a um conjunto de observações e de preceitos, e não a uma pessoa. É então indevidamente que o livro a  personaliza, conferindo-lhe a capacidade volitiva, exclusiva dos animais e dos seres humanos, e não dos conceitos teóricos.

Semelhante personalização faz sentido apenas se atribuída aos indivíduos em quem ela se manifesta, aos gramáticos e aos autores de livros e audiovisuais explicativos da gramática, que, segundo o “Preconceito lingüístico”, seriam diabólicos fautores de sutilezas vernaculares em verdade inexistentes, cuja falsa existência impingiriam aos incautos, para justificarem perante estes o seu papel de gramáticos e de explicadores gramaticais, submetendo-os a uma dependência artificial, graças à qual produzem livros que, claro,   rendem-lhes lucros.

Isto é levar a fantasia longe demais, a ponto de perder-se todo o senso de realidade. É necessária uma temeridade intelectual perplexante para expor-se aos leitores com uma extravagância desta ordem, equivalente a afirmar-se que os médicos inventaram as moléstias para justificar a sua função curativa e convencer-nos de que necessitamos deles, o que é evidentemente  falso.

4) Na página 109 o livro desautoriza a censura da norma culta que reputa errada a expressão “outra alternativa” pois em latim, alter significava “outro”. “Mas desde quando nós falamos latim no Brasil?” Interroga-nos.

Desde nunca, obviamente, nem teria sido preciso que em algum momento tivéssemo-lo falado para, com base no próprio português, perceber-se o acerto da censura gramatical.

Com efeito, uma alternativa corresponde a uma opção entre dois elementos, à escolha que se faz de um com a exclusão do outro. Se há alternativa, pode-se eleger X em lugar de Y, ou o contrário disto.

Se alternativa  significa uma dupla de elementos, “outra alternativa” supõe a  existência de outros dois elementos entre os quais pode-se escolher. Há, portanto, duas duplas de elementos e duas escolhas a fazer-se, uma em cada par.

Ora, quando alguém desavisado da gramática emprega a expressão em análise, não se  reporta a duas duplas de elementos e a duas escolhas, e sim a um terceiro elemento, que se acrescenta aos anteriores isoladamente. Logo, não há  uma outra alternativa, e sim uma outra opção.

A norma culta aplicável ao caso procede e é mediante um sofisma, artifício freqüente no livro,   que  ele a menospreza.

5) Na  página 126 encontra-se: “Em relação à língua escrita, seria pedagogicamente proveitoso substituir a noção de erro pela de tentativa de acerto” (itálicos do original).

Eis mais um caso de sofisma, em que o verossímil encobre o falso.

De fato, cumpre discernir entre tentativa de acerto e erro.

A tentativa de acerto é o ensaio, a experimentação, a prática do indivíduo que atua sob o ânimo de fazê-lo a preceito, que busca um resultado a ser confirmado ou negado mediante confronto com o ideal a que aspirou. Ao mesmo tempo em que ele almeja um resultado perfeito, há incerteza quanto à adequação do seu procedimento e à obtenção da resultância. São duvidosos os seus meios e os seus fins, aqueles na sua aptidão, estes na sua consecução, motivos porque cuida-se de uma experimentação de cuja falibilidade o seu autor acha-se cônscio.

Erro é o fracasso da atuação, o resultado incorreto ou diverso do almejado.

Tenta-se acertar quando se delibera proceder a uma tentativa; erra-se quando a ação fracassa, quer tenha ela decorrido de uma tentativa, quer de um desempenho que se pretendia perfeito nos seus meios ou nos seus fins, ou em ambos. Qualquer tentativa pode resultar em um erro, não obstante nem todo erro provenha de uma tentativa.

Se alguém, ao grafar certa palavra, fê-lo sob a deliberação de submeter a sua redação a prova, pela consulta a um dicionário ou a quem a conheça, terá praticado uma tentativa de acerto. Se, no entanto, este mesmo indivíduo grafar a mesma palavra sem o propósito de confrontar a sua grafia com a forma padrão, e se aquela discrepar desta, então ele não terá fracassado na sua tentativa de acerto, porquanto não terá tentado acertar: ele terá errado pura e simplesmente.

Pretender substituir a noção de erro pela de tentativa de acerto é aceitável  somente nas ocasiões em que há experimentação para posterior verificação (como nos exercícios de aprendizagem dos idiomas), fora das quais tal substituição deixa de funcionar como instrumento de aprendizado e, portanto, como uma forma de aprender-se a grafia correta e de evitar-se a repetição do erro, para se converter em uma desculpa fácil ao cometimento deste, produto, por sua vez, da ignorância ou da incúria, por cujas erradicações o “Preconceito lingüístico” revela uma indiferença total, indiferença que também evidencia quanto ao  que é decisivo e crucial na “tentativa de acerto”, a saber, o seu resultado: não basta que o indivíduo tente acertar, cumpre que ele  acerte e que o faça tão maximamente quanto possível. Louvar o erro embelezando-o com o título nobiliárquico que lhe confere o livro, ilude a questão fulcral e implícita: a de que é imperativo habilitar as pessoas a acertarem, e louvar o acerto, mediante a promoção perseverante e maciça da escolarização, da introdução do hábito da leitura e do prestigiamento do rigor  no uso do idioma. Quem erra, fá-lo porque não conseguiu acertar, porque não o soube fazer, e não porque assim se determinou.

Ainda que o erro encarnasse uma tentativa de erro, segundo entende o “Preconceito lingüístico”, uma vez praticado o erro, esgotar-se-ia a tentativa, não fazendo sentido reproduzir-se uma tentativa gorada ao invés de corrigir-se o erro, mediante a capacitação do indivíduo a um resultado positivo na oportunidade subseqüente, o que alcançar-se-á mediante a instrução dos que erram e jamais mediante a consagração dos seus erros. 

Contudo e lamentavelmente, dentre os vários argumentos do livro, não há nenhum em favor da elevação do nível de instrução das pessoas, única forma de habilitá-las a acertarem a cada tentativa.

6)      Na mesma página, à frase criticada no item precedente, segue-se esta: “Afinal, a língua escrita é uma tentativa de analisar a língua falada” (itálico do original).

A língua escrita é uma tentativa de analisar a falada! Há, portanto, duas línguas, a escrita e a falada, das quais a primeira consiste em examinar a segunda.

Que asneira, que extravagância!!!

 Não, não há duas línguas, uma escrita e uma falada. Há duas formas como as dezenas de idiomas se manifestam: por escrito e oralmente, ou seja, aquilo que se tenciona exprimir, pode ser expresso por palavras pronunciadas ou lançadas em algum suporte material.

Em segundo lugar, a modalidade escrita não é uma tentativa de analisar a falada. A análise da língua falada, ou melhor, da forma oral de expressão, corresponde a uma destinação ou a um emprego que se pode conferir ao idioma, dentre um sem número de outras. Pode-se, com efeito, utilizá-lo  para ensinar, para poetar, para prosear, para filosofar, para iludir etc, e para analisar-se o uso oral que dele se faz.

Neste passo, o livro profere duas falsidades em uma só frase.

7)Na página 127 encontram-se estes dizeres: “Quanto à língua falada, fica óbvio que o rótulo de erro é aplicado a toda e qualquer manifestação lingüística…que se diferencie das regras prescritas pela gramática normativa, que se apresenta como codificação da “língua culta”, embora na verdade seja a codificação de um padrão idealizado, que não coincide com a verdadeira variedade culta objetiva”.

Assim, tudo quanto se capitula de erro equivale, na verdade, à “codificação de um padrão idealizado, que não coincide com a verdadeira   variedade culta objetiva”.

Atente-se ao enunciado: “verdadeira variedade culta objetiva”.  Então porventura existe alguma variedade culta falsa ou subjetiva?!

A “variedade culta” acha-se constituída nas gramáticas, de modo escrito, portanto objetivo, e verdadeiro, haja vista as gramáticas documentarem a norma culta como ela efetivamente existe e não ao contrário.

Os dois adjetivos (verdadeira e objetiva) são inteiramente dispensáveis e propiciam um exemplo de algo mal pensado e pior redigido.

Consoante  o “Preconceito lingüístico”, aquilo que se reputa erro encarna a “codificação de um padrão idealizado”. Assim, quando alguém profere “déi” (ao invés de “dez”), tal expressão codifica um padrão idealizado.

Se se cuida de um padrão idealizado, é porque na sua concepção interveio a vontade humana de criar um ideal, a deliberação consciente de alguém ou de um grupo  de pessoas, de falar daquele modo.

Ora, quem seria o criador deste padrão? Tal indagação o livro, cautelosamente, abstém-se de formular, pois a resposta a ela é esta: ninguém. Não há criador nenhum de padrão idealizado pois nada se idealizou, nada se concebeu no mundo das idéias.

Ao contrário, foi por ausência de reflexão, por incultura, por negligência, por comodismo, por imitação, que aquela “variedade” surgiu e propagou-se, sem que os seus usuários tivessem noção nem intenção  de codificarem patavina e de idealizarem fosse o que fosse.

Não posso atinar em como o “padrão idealizado” que equivale ao erro, seja “codificado” e comparável à codificação representada pela gramática. Esta sim é uma codificação, pois compreende um acervo escrito de observações, de distinções e de prescrições organizadas pela inteligência humana. Há codificação porque há método, organização e redação, precisamente o que falta nos erros, que se vão formando ao sabor da negligência e da ignorância de uns e da imitação dos demais.

Para além disto, é contraditória a expressão “codificação de padrão idealizado”: se algo acha-se em estado ideal, ainda não se constituiu na realidade, ainda é pura concepção mental, vir a ser. Ora, um código já existe, já é, já se constituiu materialmente. Logo, é impossível uma “codificação de padrão idealizado”: ou trata-se de uma codificação e  não há idealização, ou há idealização e não se trata de uma codificação. Ambos simultaneamente é que não pode ser, a exemplo do quadrado redondo e do morto vivo.

Diante disto, o mínimo que se pode concluir, é que “Preconceito  lingüístico” emprega pessimamente os vocábulos e concebe ainda mais pessimamente os conceitos com que argumenta.

8)Na página 124 depara o leitor a afirmação de que “a língua materna…é adquirida pela criança desde o útero, é absorvida junto com o leite materno”.

Atenção: o texto é mesmo assim: a língua é adquirida desde o útero e absorvida juntamente com o leite materno.

Confesso que li e reli tal passagem, que de começo percebi como seria natural, mesmo inevitável que a percebesse, à maneira de metáfora.

Ao considerá-la novamente, e com imensa perplexidade, averigüei não haver o “Preconceito lingüístico” empregado, neste trecho, nenhuma figura de linguagem e sim  haver falado em sentido próprio.

Desta forma, na fase uterina de formação do embrião e do feto, esta criatura, que sequer falar sabe, já lá anda a aprender o idioma da sua genitora!  Recém-nascido, analfabeto ainda, ela já adquiriu, no caso dos brasileiros, a língua portuguesa! Isto é que é prodígio!!!

Durante a sua infância, ao sugar o seio da mãe, juntamente com o alimento liqüido, a criança bebe o idioma!

Não se trata de metáforas: ambas asserções seguem a em que o autor nega ao idioma o caráter de “saber secundário, obtido por meio de treinamento, prática e memorização”. Não se aprende, pois, o idioma por treinamento da pronúncia das palavras,  nem pela prática dos tempos verbais nas diferentes pessoas, nem pela memorização da acepção das palavras e dos ditames gramaticais. Ele aprende-se por via oral, como bebida que é, e por via umbilical, como o que não sei. E tanto assim é, que o parágrafo prossegue com a prova do enunciado: “Por isso qualquer criança entre os 3 e os 4 anos de idade (se não menos) já domina plenamente a gramática da sua língua”. Pudera! Bebeu-a desde recém-nascido e absorveu-a antes de nascer!

É inacreditável, é escandaloso, é mesmo monstruoso que uma asneira desta gravidade se encontre lançada, palavra por palavra, em um livro de que já se venderam cinqüenta mil exemplares! A que ponto chegamos!!!!

9)Na sua página 116, “Preconceito lingüístico” preconiza aos professores lançarem dúvidas na mente dos seus alunos quanto à validade da gramática. Por que os estudantes iriam desperdiçar tempo em aprender e aplicar regras que os próprios docentes reputam duvidosas e verberam como indesejáveis? Por que então aulas de português? Claro, nas aulas ensina-se  o que não se sabe e deve-se saber; se o saber gramatical  é preconceituoso, não se compreende que ele seja objeto de ensino, caso em que o melhor é pura e simplesmente não se ensinar gramática e, de conseqüência, não se ensinar nada em termos de Língua Portuguesa, pois não se haveria de, em lugar da gramática, inculcar as formas coloquiais de uso idiomático, ou seja, aquilo que os alunos já sabem por conhecimento próprio.

Se alguém suspeitar de que com isto abriu-se o caminho à anarquia e aos guetos lingüísticos, acertou em cheio: o professor Bagno confessa preferir a barbárie do cada um por si, ao regramento da norma culta.

Semelhante predileção é de uma gravidade enorme e sem precedentes: ela despreza os padrões tradicionais de uso lingüístico, cuja constituição resultou da obra lenta de séculos e de gerações, graças aos quais,  havendo homogeneidade de formas de expressão, há possibilidade de pronta compreensão e, pois, de eficiente comunicação, utilidade precípua e razão de ser de todo idioma.

A difundir-se tal preferência, cada qual  falará como quiser, sobretudo como puder, e os outros que entendam o que puderem e como puderem: o falante (ou escrevente) estará no exercício dos seus “direitos lingüísticos”, conceito encontradiço no opúsculo em foco. Regressaremos à Idade da Pedra, em que, se havia já dominantes, dominados, preconceituosos e suas vítimas, ao menos – que consolo!- não havia gramáticas!!        

Por isto e por incontáveis outras passagens, quem ler   o livro com algum senso crítico, atina logo no quão pouco inteligente ele é. No entanto, com todo o seu primarismo,  vem conhecendo um êxito estrondoso nas suas nove, senão mais, edições, o que decorrerá, porventura, do prestígio de que gozam nos meios universitários (e não só) as doutrinas de observância marxista, ao ponto de haverem reduzido a capacidade crítica dos seus fiéis, na  subserviência intelectual que os torna receptivos ao que de mais refutável possa haver.

Outro dos livros do mesmo escritor, “Dramática da língua portuguesa”, ele o redatou em “tom marcadamente engajado, militante mesmo”, propondo um novo senso comum lingüístico, que rompa com a ordem estabelecida e consagre uma nova gramática, a dos brasileiros, mais exatamente, a dos brasileiros da classe média urbana e supostamente culta do Brasil atual, a ser adotada como novo padrão.

A exemplo do precedente, não é livro de ciência: é um panfleto político, que leva a sério somente quem quiser e em cuja página 302 recomenda identificar-se  a desprezível gramática tradicional com a colonização portuguesa no Brasil, fomentando-se abertamente o ressentimento do povo  brasileiro contra o seu próprio passado e contra os portugueses. Claro: se a gramática é má e foi-nos impingida pelos portugueses, são eles culpados por este nosso mal e, portanto, é justo que os detestemos.

O mal desta identificação é duplo: ela induz os brasileiros contra os portugueses, portanto encorpa o sentimento malsão do antilusitansmo ou preconceito hostil a Portugal e à sua gente, como desperta nos brasileiros um certo constrangimento quanto ao nosso próprio passado, um sentimento de vergonha de nossas origens, apto somente a mais debilitar o nosso patriotismo, em regra tão esbatido. Visando combater a exclusão lingüística, a “Dramática” recorre a  um nacionalismo infantil e xenófobo,  promove o ranço de um povo contra outro e o ressentimento histórico do brasileiro, causa imediata do nosso tão encontradiço complexo de inferioridade face ao estrangeiro, origem, por sua vez, da admiração tola de muitos dos nossos patrícios pelos Estados Unidos da América, patrícios que, embora incapazes de redigir uma frase com exatidão e beleza em vernáculo, não poupam esforços por adquirir  um  inglês gramatical.

Duas passagens de “Preconceito lingüístico” revestem-se de natureza prática, sugerindo atitudes a adotar-se nas escolas, no âmbito do ensino da Língua Portuguesa. Acha-se, uma, nas páginas 138 e 139, e  nas 142 a 145 a outra. A primeira corresponde à parte final do capítulo intitulado “A paranóia ortográfica”, com cujo início (página 131) relaciona-se. Para que o leitor compreenda a vinculação entre o princípio e o final do referido capítulo, reproduzo-os:

A atitude tradicional do professor de português – eis o início- , ao receber um texto produzido por um aluno, é procurar imediatamente os “erros”, direcionar toda a sua atenção para a localização e erradicação do que está “incorreto”. É uma preocupação quase exclusiva com a forma, pouco importando o que haja ali de conteúdo. É sobretudo aquilo que chamo de paranóia ortográfica” etc.

Ao recebermos, lê-se no final, um texto escrito por  alguém  (ou ao ouvir alguém falar), vamos procurar ver, antes de tudo, o que ele/ela está querendo comunicar, para só depois nos preocuparmos com os detalhes de como ele/ela está se comunicando. Vamos fazer a nós mesmos as seguintes perguntas:

-Esse texto (ou esse discurso) é coerente?

-Traz idéiais originais?

-Ofende algum princípio ético?

-É preconceituoso?

-Reproduz idéias autoritárias ou intolerantes?

-Mostra um espírito crítico e/ou criativo?

- Demonstra um senso estético?

-Comunica que sentimentos?

- Ensina-me alguma coisa?

-Desperta minhas emoções? Quais?

-…

E assim por diante. Isso é que é educar: dar voz ao outro, reconhecer seu direito à palavra, encorajá-lo a manifestar-se… Sem isso, não é de admirar que a atividade de redação seja tão problemática na escola. Eu confesso que sinto muito maior prazer ao ler (ou ouvir) um texto cheio de “erros de português” – mas com idéias originais, inovadoras, coerentes, bem expressas -, um texto isento de preconceitos e de idéias rançosas, do que ao ler um texto com todas as vírgulas no lugar, com todas as regências cultas respeitadas, todas as concordâncias verbais e nominais, mas repleto de intolerância, de deboche, de sarcasmo, de concepções degradantes e por aí afora.

Se o ouvinte ou o leitor ativerem-se exclusiva ou preferentemente ao teor expresso pelo que ouviram ou leram, admito que aquele rol de indagações sirva como orientação  na análise do teor respectivo, quer se cure, por exemplo, de uma redação escolar, quer, sobretudo, de um manifesto político, de um ensaio filosófico,  de uma obra doutrinária.

Em se tratando, porém, de um texto (ou de uma fala) produzido por um aluno como exercício em uma aula de Língua Portuguesa, nada mais natural do que o professor ater-se prioritariamente à forma e apenas subalternamente ao conteúdo, ou mesmo desconsiderar a este. Ele atuará como fiscal da forma e como simples observador do fundo, que fiscalizará, no máximo, para verificar em que medida ele quadrou ao tema que prescreveu, como objeto do discurso.         Afinal, a missão deste professor cifra-se em capacitar os seus alunos a exprimirem-se com exatidão, propriedade e beleza.

Não lhe pertence, não lhe pode legitimamente pertencer, examinar o texto nos termos em que o autor o preceitua, ou seja, como  secundariamente fiscal da  forma e primordialmente como do pensamento.

Se diante de  uma produção escrita ou falada, deve-se averigüar se ela ofende algum princípio ético, se porta preconceitos, se reproduz idéias autoritárias etc,    o referencial da eticidade, do preconceito, do autoritarismo etc, encarna-se no leitor ou no ouvinte (ainda que ele julgue o texto segundo padrões alheios), que assim, avalia-lo-á positiva ou negativamente, consoante julgue-o autoritário ou  tolerante, preconceituoso ou não,  conforme à moral vigente ou avesso a ela, em função da sua experiência de vida, dos seus preconceitos, da sua religião, da sua ideologia, dos seus valores, do seu credo político, dos seus caprichos, em uma palavra, da sua sensibilidade pessoal.

Reconheço de boa vontade esta liberdade de juízo e a capacidade fiscalizatória que a fundamenta, em se tratando de um leitor (ou ouvinte) qualquer face a um escritor ou falante qualquer. Não a reconheço absolutamente, em contrapartida, em um professor de português perante um seu aluno. Entre eles, o relacionamento é de índole profissional, é de ensino e de aprendizado, de transmissão de conhecimentos pertinentes ao uso do idioma, às suas formas, à sua estrutura etc, por modo a o professor habilitar o aluno a transmitir capazmente tudo quanto pretenda, independentemente do conteúdo pretendido.

Não corresponde ao professor fiscalizar se e em que medida os seus alunos transgrediram a ética, aderiram a preconceitos, perfilharam idéias autoritárias, etc: enquanto pessoa, goza o aluno da liberdade de adotar os princípios, os preconceitos e as idéias que a sua consciência lhe ditar, goza de liberdade plena de pensamento, de que ninguém, e portanto de que nenhum professor seu, pode erigir-se em fiscal e controlador. Menos ainda pertence ao docente fiscalizá-los em detrimento do seu papel institucional, relativo à forma e jamais ao conteúdo.

Suponha-se que um aluno, em forma corretíssima, haja redatado um panfleto racista: mais não deve o professor do que avaliar-lhe positivamente a produção, por mais que ela, como cidadão, lhe repugne. Da mesma forma, se este dicente produzir um manifesto pela fraternidade universal, com má ortografia e nenhuma concordância, mais não deverá o lente do que avaliar-lhe negativamente o texto, ainda que ele, como cidadão, o encante.

Fora destas condições, a escola deixará de sediar o aprendizado para converter-se no local por excelência do patrulhamento, da subserviência intelectual, do autoritarismo mental de quem pode mais sobre quem pode menos, do senhor da nota como detentor da verdade e de direitos sobre a consciência alheia.

Submetendo os professores os textos dos seus instruendos ao questionário sugerido em “Preconceito lingüístico”, eles não os estariam educando, nem  lhes dando voz, nem encorajando-os a manifestarem-se, tampouco lhes reconhecendo o direito à palavra: estariam a instituir o “escolarmente correto”, o terrorismo pedagógico, a manipulação das mentes pela necessidade das boas notas.

O decálogo da falácia

 O segundo fragmento de “Preconceito lingüístico” dotado de natureza prática, sob a forma de preceitos, serve de fecho ao opúsculo e intitula-se “Dez cisões para um ensino de língua não (ou menos) preconceituoso)”. Consideremo-los um a um:

1) Enuncia-se desta forma o mandamento inicial: Conscientizar-se de que todo falante nativo de uma língua é um usuário competente dessa língua, por isso ele SABE essa língua. Entre os 3 e 4 anos de idade, uma criança já domina integralmente a gramática de sua língua. Sendo assim, e prossegue com o preceito seguinte.

Primário em seus raciocínios, o livro neste passo é-o também na sua enunciação. É como se ele se dirigisse a um público pouco apto a seguir elocubrações mais articuladas e, de conseqüência, capaz de inteligir apenas o que, sendo escassamente inteligente, deve ser pobremente redigido. Fora eu o autor,  teria concebido a frase  nestes termos: “Conscientizar-se de que todo falante nativo de uma língua é um seu usuário competente, motivo porque ele sabe-a”.

Redatada com mais ou menos beleza, tal assertiva padece de falsidade. Com efeito, os falantes nativos de um idioma não encarnam, por definição, seus usuários competentes. Ao contrário, são pessoas que se exprimem por meio dela consoante o grau em que o conhecem, na medida em que empregam tal conhecimento e em que se esforçam por usá-lo competentemente.

Afinal, nem todos se empenham em adquirir os recursos e possibilidades expressivas que lhes oferece o seu idioma nem todos se esforçam por aplicá-los e, portanto, nem todos  sabem o seu idioma e nem todos, aliás, bem poucos, são seus usuários competentes.

Os falantes nativos de um idioma tornar-se-ão seus usuários competentes caso lhe hajam interiorizado a mecânica e adquirido vocabulário que lhes permita uma comunicação rigorosa e exata, se dominarem os recursos de expressão que ele oferece, se alcançarem externar-se com rigor de fundo e  com beleza de forma.

Nada disto se adquire natural e espontaneamente. Ao contrário, o uso proficiente de um idioma abrolha de um esforço inteligente de seu aprendizado ao longo de algum tempo e do emprego, seja consciente, seja automático, do quanto se adquiriu.

Ninguém nasce já sabedor do seu idioma nem o sabe espontaneamente. O que se sabe espontaneamente é comunicar-se no seu idioma, condicionado pelo quanto dele se domina e pelo quanto se emprega deste domínio. Não há competência idiomática pura e simples, livre de qualquer condição: ela depende do aprendizado e da aplicação do aprendido; longe de ser natural ao falante, resulta ela de um seu esforço cultural. Principia o decálogo, destarte, com uma mentira.

A asserção de que entre os 3 e os4 anos de idade, uma criança já domina integralmente a gramática da sua língua  é absolutamente escandalosa, de uma absurdez indisfarçável. Custa-me acreditar que tenha sido formulada em tom afirmativo e exposta ao público à guisa de verdade.

Um infante de 3 ou 4 anos serve-se do idioma por mimese, exprime-se imitando o que ouve, na medida em que compreende o que assimila e fala como lhe falam, na medida em que logra articular as palavras, associar os significantes aos significados, relacionar os conceitos abstratos ao que lhes corresponde em concreto, fenômenos que, se vão se constituindo ao longo do desenvolvimento da criança, estão longe, muito longe de, naquela tenra idade, permitirem-lhe dominar, e dominar integralmente a gramática. Qual de nós, aos 3 ou 4 anos de idade, conhecia já, e as dominava, a sintaxe, a fonética, a estilística, a morfologia e a semântica ? Mesmo abundantes adultos não as conhecem e ainda menos as dominam.

A primeira “cisão” contém, portanto, uma falsidade e um absurdo.

2) Por sua vez, prescreve a segunda cisão  “aceitar a idéia de que não existe erro de português. Existem diferenças de uso ou alternativas de uso em relação à regra única proposta pela gramática normativa” (itálicos do original). A inexistir erro de português, será necessariamente correta toda e qualquer forma como se use o idioma e, desta  arte, cada qual será livre para empregá-lo a seu talante, porquanto o seu uso pessoal, por mais destoante que seja do gramatical ou do que faz o seu semelhante, corresponderá a uma forma correta.

Será, por definição, correta qualquer conjugação verbal, qualquer vínculo entre qualquer significante e qualquer significado, qualquer concordância, qualquer utilização das preposições, qualquer sistema de pontuação.

Se, por exemplo, aprouver-me utilizar o futuro como pretérito e parênteses no papel de exclamações, tratar-se-á, por definição, de um emprego correto, por mais embaraços que abrolhe aos meus interlocutores. Errado é que não será: não há erro de português! Se esta minha gramática  individual destoar da oficial ou da alheia, pior para estas: preconceitos, para cima de mim é que não!!!

Cada grupo ou indivíduo tornar-se-á livre para conceber o seu emprego particular do idioma, pelo que poderão constituir-se tantos usos quantos usuários, todos, claro, igualmente corretos uns face aos outros, enquanto alternativas ou diferenças relativamente à norma gramatical, cuja função radica, precisamente, na de uniformizar o uso em favor da compreensão, da parte de todos, daquilo que cada qual usa.

Enquanto, segundo o opúsculo que examino, a gramática normativa gera o preconceito, embora também viabilize a compreensão recíproca dos indivíduos, a “cisão” em comento, libertando-nos do preconceito, introduz-nos o caos. De Brasil, seremos Babel…

Em matéria de língua, portanto, vale tudo, aliás, retifica o mesmo livro (na página 129), “tudo vale alguma coisa”, mesmo que aquilo que vale, valha estritamente para algum ou alguns indivíduos, por falta de haverem assimilado o que pode e deve valer para todos.

Ainda que se interpretasse a afirmação de que “não existe erro de português” como “não existe erro de comunicação”, ela conteria uma falseza. Com efeito, é da experiência comum que nem toda comunicação se realiza com perfeição, transmitindo verdadeiramente o que o seu emissor tencionava. Quanto mais pobre o  seu vocabulário, ou o do receptor, quanto mais freqüente a catacrese, quanto mais localizada no tempo e no espaço a terminologia, quanto menos homogênea a ordem idiomática,  com tanto maior  probabilidade e  gravidade verificar-se-ão os equívocos de comunicação, as ambigüidades, as dúvidas, as obscuridades, a desarmonia entre o que se tencionava transmitir e o percebido pelo destinatário.

Tanto maior será o risco de erro de comunicação, quanto maior a margem do erro de português, ou seja, a diferença ou a variação face à gramática normativa cuja observância torna-se altamente recomendável.

3) O terceiro ditame sugerido pelo livro traduz-se em “não confundir erro de português (que, afinal, não existe) com simples erro de ortografia” (itálicos do original). A ortografia integra o português e o lapso ortográfico representa uma modalidade de erro de português, dentre outras, como os de conjugação, de regência etc. Erro de português e erro de ortografia relacionam-se, respectivamente, como gênero e espécie, todo e parte, continente e conteúdo. Se inexiste o primeiro (consoante a segunda “cisão”), dentro de que lógica não se deve confundí-lo com o segundo? Pois, de duas, uma: ou o erro de português inexiste e a confusão com o de ortografia é falsa, existindo apenas o segundo, caso em que é correta a cisão, ou a confusão é verdadeira e o erro de português existe, compreendendo, entre outras formas, o de ortografia, caso em que a terceira cisão contradiz a que a precede.

4) A quarta cisão apresenta-se formulada assim: “Reconhecer que tudo o que a Gramática Tradicional chama de erro é na verdade um fenômeno que tem uma explicação perfeitamente demonstrável. Se milhões de pessoas (cultas inclusive) estão optando por um uso que difere da regra prescrita nas gramáticas normativas é porque há alguma regra nova sobrepondo-se à antiga. Assim, o problema está com a regra tradicional, e não com as pessoas, que são falantes nativos e perfeitamente competentes de sua língua. Nada é por acaso” (itálico do original). Tudo quanto se observa no mundo físico e social que não sejam atos humanos, são fenômenos e como tais, passíveis de uma explicação científica. Explicá-los, contudo, não equivale a justificá-los e muito menos, a fundamentar a passividade humana perante eles.

São as moléstias fenômenos perfeitamente explicáveis: devem-se elas a agentes patogênicos, que os médicos procuram erradicar ao se apoderarem de um organismo. Diante do fenômeno, o ser humano pode e mesmo deve intervir, seja para eliminá-lo, seja para evitar-lhe a reprodução.

Se milhões de pessoas adotam um uso diverso do prescrito pela gramática, tal não se deve a uma “nova regra sobrepondo-se à antiga”, nem  a que o “problema” esteja “com a regra tradicional”. Esta multidão não está “optando” por novas formas e adotando regras inovadoras; ela está pura e simplesmente negligenciando as que já existem.

Estes milhões de brasileiros não deliberaram deixar de atender à norma para, em seu lugar, regerem-se por uma outra. Não há substituição consciente do antigo pelo novo, o que suporia consciência de ambas. O que há, isto sim, é o desuso da regra, em função da sua ignorância e do desleixo da parte dos que, conhecendo-a, negligenciam-na. Estes milhões de brasileiros não andam a optar por nada, eles falam como podem, limitados pelo seu analfabetismo, pela sua insuficiente escolaridade e pela ausência do hábito da leitura, vale dizer, pela nenhuma ou escassa interiorização das regras. E ainda pelo servilismo com que os sabedores das regras imitam os que as ignoram, em uma demonstração indigna do ser humano, de preguiça, de incúria, de render-se ao menor esforço, do exemplo que toma o estudado do que não estudou, ao invés de lho dar.

Estes milhões de brasileiros são os excluídos da gramática, são milhões de sub-letrados, vítimas do descaso dos governantes pela instrução popular. E quando não são  os excluídos, são os que, tendo tido acesso ao aprendizado da gramática, desdenham de usá-la, cedendo às formas resultantes da ignorância. Rebaixam-se do seu conhecimento ao desconhecimento ambiente, o que reputo particularmente degradante e vergonhoso.

Quando observo a celeridade com que, nos últimos anos, as camadas urbanas médias, mesmo os professores, passaram a desusar os plurais e as concordâncias (“as roupa foi lavado”), pondero que tornamo-nos um povo inferiorizado, que se aviltou ao invés de se elevar. Não devido apenas aos plurais e às concordâncias em si, cujo desuso indica ignorância e negligência, contudo devido também ao fenômeno de que resulta esta negligência:  em lugar de as gentes dotadas de saber empregarem-no e o partilharem com as  que não lhe acederam, propiciando às massas um exemplo positivo, renunciaram coletivamente a esta função educadora (admiravelmente exposta por Ortega y Gasset em “España invertebrada”).

Com isto, o saber dos que o possuem redunda em inutilidade individual e social e na decomposição do idioma entre nós.  Sobre quem freqüentou  boas escolas e, durante anos a fio, estudou a Língua Portuguesa, pesa a obrigação, perante si  próprio e perante a coletividade, de empregar o quanto adquiriu. A ausência deste senso de dever indica, por sua vez, a perda do sentido de responsabilidade social, neste particular ao menos.

O problema não radica, de conseqüência, na gramática tradicional, porém no povo que não a assimilou ou que, tendo-a assimilado, a negligencia. O fenômeno é o da ignorância que se revela, não o da gramática que se arcaiza. A solução não pode  consistir em adaptar-se esta às formas coloquiais, porém sim em educar-se maciça e urgentemente as massas populares, incluindo-as na regra, ao invés de consagrar os efeitos da exclusão. Há que remediar o mal em lugar de lhe perpetuar os sintomas, entendimento ausente em “Preconceito lingüístico”, que não o formula sequer para o profligar, em uma renovada demonstração da sua apatia perante o nível de instrução das massas no Brasil, que tenciona libertar dos supostos preconceitos que as vitimam, porém não da incultura que a vitima ainda mais.

5) Prescreve a quinta “cisão” “conscientizar-se de que toda língua muda e varia. O que hoje é visto como certo já foi erro no passado. O que hoje é considerado erro pode vir a ser perfeitamente aceito como certo no futuro da língua”, o que sendo inteiramente exato, não equivale a que todas mudança e  variação sejam aceitáveis e devam ser admitidas sem mais critério do que a conscientização enunciada. Se a mudança e a variação decorrem, como no caso brasileiro, do analfabetismo, da exígua escolarização, do desapego ao livro, da incúria, vale dizer, dos fatores evidentemente negativos que são a exclusão cultural e a negligência dos incluídos, então incorporar as alterações corresponde a  consagrar os frutos da ignorância, a nivelar o idioma por baixo, a degradá-lo, a retroceder. Por isto é falacioso pensar-se, como pensa o autor de “Preconceito lingüístico”, que falam os brasileiros tão bem quanto os portugueses, cada qual a sua modalidade de uso idiomático.

Não: os brasileiros falam mal o idioma porque  o desconhecem e quando o conhecem, negligenciam-no; os portugueses falam-no bem porque o conhecem e porque aplicam o conhecimento respectivo.

6) Enuncia-se a sexta proposição em “dar-se conta de que a língua portuguesa não vai nem bem, nem mal. Ela simplesmente VAI, isto é, segue seu rumo”. É o mesmo que lançar-se uma embarcação ao mar, desprovida de bússola e de carta de marear e quando ela naufragasse, exclamar-se, com inteira resignação: “Ela não foi nem bem, nem mal. Ela simplesmente foi, isto é, seguiu o seu rumo.” Que o vernáculo segue o seu  rumo, é verdadeiro. O que não é absolutamente verdadeiro, é que as suas modificações sejam axiologicamente neutras ou indiferentes; que o ir, seja ir simplesmente, sem mais qualificativos, que o ir bem e o ir mal equivalham-se. Aceitar o ditame em tela exige a mais cabal indiferença ética, um amoralismo completo, a indiferenciação entre o desejável e o indesejável, entre o louvável e o censurável, entre o bom e o mau. A língua portuguesa vai, sem dúvida. Ela vai mal, muito mal para que se possa assistir sem preocupação, sem alarme, sem angústia ao espetáculo  grotesco das simplificações sucessivas que vem sofrendo, à multiplicação das gírias que substituem a cada momento um vocabulário cada vez mais restrito, aos americanismos que substituem os vernacularismos, ao empobrecimento da capacidade de expressão das pessoas, à redação inepta dos advogados mais jovens, aos universitários sub-letrados, à pecha de arrogância e de preciosismo irrogada a quem, na academia, busca alguma beleza estética. E ainda à preguiça de ler, de consultar o dicionário, de enunciar as frases fora da mediocridade ambiente.

A que ponto de miséria chegamos!

Em seu amoralismo, a proposição de número 6 é socialmente hedionda: ao obscurecer o senso de qualidade, que permite distinguir o bom do mau, e ao conduzir à passividade diante da calamidade social que se traduz na incultura das massas, ela concorre para com a manutenção desta realidade, perpetuando a exclusão cultural ao protagonizar a resignação perante as suas manifestações.

7) Recomenda o enunciado subseqüente “respeitar  a variedade lingüística de toda e qualquer pessoa pois isso equivale a respeitar a integridade física e moral dessa pessoa”. Esta “cisão”, que se compagina com a segunda, segundo a qual inexiste erro de português, vai mal redatada, porquanto repete o sujeito ao invés de aplicar o pronome  que deveria tê-lo substituído,  a evitar a prolixidade  da frase que, assim, acrescentar-se-ia em elegância. Há que, lá diz o sétimo mandamento, respeitar-se a variedade idiomática de qualquer pessoa enquanto uso, correto por inerência, da língua.         Concordo com a proposição, se por variedade lingüística entender-se um desempenho idiomático equivalente a outro ou a outros, desde que todos igualmente fiéis ao seu código normativo, em uma palavra, à sua gramática, a exemplo das construções “o cara foi em cana” e “o indivíduo sofreu prisão”  (não obstante o caráter vulgar da primeira, que pessoalmente evito) ou “parada de ônibus”e “paragem do auto-carro”, correntes, a primeira, no Brasil, e a segunda, além-mar.

Não reputo, contudo, respeitável nenhuma variedade se por este substantivo entender-se uma forma de enunciação que aberre da norma gramatical, que sobre ela tome licenças.

“Respeitar”, na acepção em que o enunciado utiliza o verbo, corresponde a “ter por boa”,  a “concordar com”, o que se harmoniza com o indiferentismo ético implícito na sexta cisão. Respeitar-se as variedades lingüísticas equivale, aí, a aceitar-se passivamente e sem nenhum critério, qualquer formulação idiomática, por mais avessa que seja a qualquer norma gramaticalmente consagrada. Afinal, a variedade a respeitar é a de “toda e qualquer pessoa”,  o que torna toda e qualquer pessoa senhora do  idioma e livre para conceber uma sua gramática pessoal, caprichosa e arbitrariamente.

Desrespeitar  as variedades individuais, “a contrario”, conduziria à imposição do preconceito de quem adota certa variedade, sobre os adeptos de outra. Portanto, tudo vale e vale tudo, segundo o próprio livro afirma-o.

Que o respeito à variedade lingüística alheia possa reputar-se uma expressão do respeito à integridade espiritual do indivíduo, é  concebível. Porém não consigo atinar em que tal respeito importe ainda, como pretende o postulado sob análise, respeito à integridade física do ser humano, à sua incolumidade material.

Discordar de alguém, menoscabar-lhe o falar, desprezar-lhe o desempenho lingüístico, não lhe afeta absolutamente em nada o corpo, a mobilidade dos seus membros, o funcionamento dos seus sentidos, a sua continuidade epidérmica.

Por mais que me esforce, não atino em que o desprezo por uma variedade expressiva comprometa a perfeição dos organismos humanos, a não ser, claro, que se pretenda estender bastante longe (longe demais) os efeitos psicossomáticos das emoções.

Trata-se de uma frase de efeito, quiçá bombástica, porém ridícula e tola.

8) A cisão de número 8 deve ser entendida como um exagero que lhe retira veracidade, ou em jeito de metáfora generosa de livro redigido por um lingüista, que não advertiu no entanto o leitor da imagem utilizada com liberdade de poeta inspirado. Com efeito, segundo ela, a língua “nos constitui enquanto seres humanos. Nós somos a língua que falamos”, “ela molda nosso modo de ver o mundo”. As línguas não nos constituem como seres humanos,  nem materialmente, pois somos constituídos de água, sais minerais, carbono etc, nem espiritualmente. Ao contrário, somos nós que as constituímos, como produto da nossa inteligência, da nossa vida em coletividade, da nossa educação.

Tampouco somos a língua que falamos, já metaforicamente, já em sentido próprio. Não o somos propriamente dito pois somos organismos animais e não  agrupamentos de advérbios, de regras de pontuação, etc. Basta ser-se  dotado de uma capacidade intelectual menos do que primária para entendê-lo, motivo porque recuso-me a estender-me neste particular, mesmo porque se somos as línguas que falamos, então os mudos não seriam, ou seja, seriam o que não é, caso notável, seja na lingüística, seja na física.

Não somos a língua que falamos em sentido figurado pois não é dela que provém a qualidade humana de cada um de nós, o nosso conteúdo individual, que decorre dos valores que assimilamos, da religião que professamos, das experiências de vida porque passamos, do ambiente em que vivemos, da nossa herança genética.

Entre um indivíduo de fala russa e um de fala esquimó não há humanidades distintas por força dos seus diferentes sistemas de comunicação. Haverá porventura sistemas heterogêneos de comunicação em decorrência dos seus diferentes conteúdos humanos. Assim, não somos a língua que falamos: ela é conforme somos.

Se fôssemos  a língua que falamos, então um russo cambiaria de conteúdo, a sua percepção de mundo, a sua hierarquia de valores, as suas convicções etc, ao adotar, por exemplo, o idioma português. Ora, evidentemente, tal não se passa: o russo conserva-se tal e qual já era enquanto exprimia-se em russo apenas. Ao adquirir o português, ele terá acrescido às suas possibilidades de expressão e de aquisição de conhecimentos  um novo meio, sem passar a ser algo diverso do que era devido ao fato em si desta aquisição.

Encerra o mandamento em questão outra tola sandice.

9) Da oitava afirmação resulta a de que “o professor de português é professor de tudo”, o que também consigo perceber apenas à guisa de exacerbação expressiva ou como uma metáfora, aliás bem dispensável. O lente de português, a exemplo de qualquer professor,  ocupa-se da transmissão de uma certa espécie, perfeitamente delimitada, de conhecimentos. Ele atém-se um determinado setor do conhecimento humano, ele encarna um especialista, e não um generalista. Admito que o lente de vernáculo (ou de qualquer outra disciplina) possa enriquecer as suas aulas relacionando-lhes o conteúdo próprio com temas afins ou mesmo alheios a ele, que por algum modo as ilustrem. Desta forma, ele poderá, por exemplo, referir-se às escolas literárias, ao um novo dicionário, à aliterância, à realidade social pátria, aos efeitos culturais da preponderância de certo país, etc.

Nenhuma destas achegas eventuais transforma-lo-á em um professor “de tudo”. Ao inverso, ele conservará a condição que lhe pertence por inerência de propiciador de conhecimentos respectivos ao idioma, sob risco de rapidamente degenerar-se em um profissional de má qualidade, que apenas escassamente cumpre o seu papel,  simulando lecionar para, em lugar disto, fazer-se de sociólogo, de filósofo, de historiador, senão mesmo de inculcador de ideologias.

Afinal, o advérbio “tudo” enseja o introduzir-se na aula de português qualquer conteúdo, inclusivamente os voltados ao doutrinamento religioso, político e filosófico, a propósito de exprimirem o entendimento do lente a respeito de “tudo”.

O professor de português não é professor de tudo, porém de português,  condição na qual deve esforçar-se por bem desempenhar a sua missão, ao invés de a desfigurar com uma pretendida polivalência.

10) Por fim, a décima afirmação consiste em que “ensinar bem é ensinar para o bem. Ensinar para o bem significa respeitar o conhecimento intuitivo do aluno, valorizar o que ele já sabe do mundo, da vida, reconhecer na língua que ele fala a sua própria identidade com ser humano. Ensinar para o bem é acrescentar e não suprimir, é elevar e não rebaixar a auto-estima do indivíduo. Somente assim, no início de cada ano letivo este indivíduo poderá comemorar a volta às aulas, em vez de lamentar a volta às jaulas!”.

Ensinar bem é ensinar para o bem: jogo de palavras fracassado porque conduz a uma identidade falsa entre a proficiência docente e o conteúdo desta docência, a uma confusão, aliás grosseira, entre como se ensina e o que se ensina.

Ensinar bem corresponde a transmitir clara e compreensivelmente dados conhecimentos, por modo a propiciar-se ao destinatário desta transmissão a pronta assimilação do conhecimento e o seu útil emprego, independentemente de se o que se ensina fomenta o bem ou promove o mal.

Aceito que no ensinar para o bem inclua-se respeitar os conhecimentos intuitivos do mundo e da vida que possua o aluno,   reconhecer na língua que ele fala a sua própria identidade pessoal, acrescentar ao invés de suprimir,  alçar-lhe a auto-estima em lugar de lha deprimir.

Indicando tais recomendações que o ensino deve enriquecer o aluno em sua qualidade humana, penso que qualquer professor endossá-las-ia desde, contudo, que fora do decálogo de que representam o fecho. E isto porque tal decálogo implicitamente prescreve a aceitação do escrever e do falar do discente no estado em que eles se constituíram, fora da escola, a despeito dela ou contra ela: é aquilo que ele “já sabe do mundo, da vida”, de que depende a sua “auto-estima” a promover e não a minorar.

Minorá-la seria desmerecer o seu desempenho lingüístico quando discrepante da norma culta. Elevá-lo, respeitando o seu “conhecimento intuitivo do mundo” equivaleria a aquiescer àquelas formas de expressão que, ao fim e ao cabo, resultam dos flagelos sociais da escolarização  insuficiente, do analfabetismo abundante, da leitura ausente e da incúria generalizada, formas que o aluno emprega por ignorar outras (ou por desvalorizar as que aprendeu).

Naquelas formas, longe de reconhecer-se a sua identidade enquanto ser humano,  deve-se reconhecer aquilo a que  ninguém, em sã consciência, deseja como qualificação pessoal, desde que não cultive a própria ignorância, o próprio  auto-aviltamento, a própria indignidade perante a capacidade, tão humana, de progresso individual.

Há jaulas e aulas: as jaulas do “Preconceito lingüístico” acham-se nas concepções nele exaradas, cujo efeito maior consiste no de conservar na incultura quem nela já se encontra, incapacitando-o de retirar-se dela, sob pena de se lhe irrogar a pecha de preconceituoso.

As aulas são o ensino da gramática, o convívio com  a literatura, o estímulo ao emprego no cotidiano do que se adquiriu na escola, o enaltecimento da beleza e do rigor na expressão falada e escrita, a busca do auto-aprimoramento, o esforço em direção ao saber, a força de vontade de sobrelevar a mediocridade ambiente, o amor ao melhor, a aversão à pobreza intelectual, à falácia, ao uso do saber como instrumento da política, o discernimento entre o que eleva e o que avilta. E, tão importante quanto todo o anterior, um agudo senso de solidariedade face aos excluídos de um saber multissecular, que nos induza a procurar incluí-los nele, ao invés de embelezá-los, agravando-lhes a exclusão sob a falácia do preconceito lingüístico que, se existe, e de fato existe, volta-se contra a norma culta do idioma.

As razões do êxito

Portador de todas estas falácias e destes primarismos, tão pouco digno da inteligência humana, tão funesto nas suas conseqüências, tão ilusório no guerrear o preconceito, tão odioso no instituir o terrorismo pedagógico, a que atribuir o êxito avassalador das  já nove ou dez edições de “Preconceito lingüístico”, que em maio de 2002 totalizavam a impressionante tiragem de cinqüenta mil exemplares vendidos e portanto uma notável aceitação?

Atribuo-o à  simplicidade que o perpassa, da primeira à derradeira páginas. Cuida-se de livro concebido em linguagem prosaica e simplista (sem ser reles), portanto legível pelas pessoas em geral,  facilidade à qual soma-se a da simplicidade com que os seus argumentos desenrolam-se, a prescindir de maiores concentrações para a sua compreensão. É um livro fácil.

Facilitadores, trata-se contudo de elementos secundários e mesmo sem os quais o seu êxito verificar-se-ia, pois o fator decisivo consiste em que o seu discurso é cativante ao leitor, não esteticamente (porquanto o seu estilo acha-se longe de representar um exemplo de beleza), e sim enquanto formaliza idéias que por alguma forma justificam o distanciamento hoje tão pronunciado entre a fala coloquial e a gramática. Milhares de pessoas pelo Brasil afora, falando mal, sabendo mal o idioma e não se esforçando em sentido inverso, encontraram neste opúsculo uma teorização que lhes consagra o desempenho lingüístico, que o autoriza, que o enaltece, que o eleva a padrão e que avilta aquilo e aqueles que se lhe opõe (a gramática e os seus campeões).

É uma disquisição que, do começo ao fim, afaga a vaidade e o ego do leitor, das milhares de pessoas cujo “saber” idiomático ela reputa positivo e que livra-os do peso na consciência de dominarem fracamente o seu próprio idioma e do sentimento de que carecem esforçarem-se por o dominarem de fato.

É um livro populista, no sentido  mais rasteiro do termo, que diz às massas o que lhes embala o coração, seduzindo-as pela emoção que lhes desperta  ao convencê-las  de que certas acham-se elas e errado aquilo que custa aplicação aprender. É populista porque persuade as pessoas de não é preciso aprender a gramática pois esta arcaizou-se e que nelas reside a verdade idiomática. É populista porque infunde-lhes um sentimento de superioridade coletiva diante de uma construção multissecular, que transforma cada desinstruído, cada subletrado, em alguém que se eleva, com a sua incultura e por causa dela, sobre o saber acumulado por gerações a fio. É populista porque, tacitamente embora, taxa de preconceituoso o imperativo de que para saber-se, é preciso aprender-se, o que certamente é muito mais difícil do que satisfazer-se com o que se  adquiriu por mera imitação do meio social. É populista porque pretende externar um grito de libertação dos milhões de culturalmente excluídos, apresentando-se como o denunciador dos alegados  autoritarismo,  intolerância e repressão  de que o livro os concebe como vítimas.

Tanto é populista e atua cativando pela simpatia ao invés de persuadir pelo rigor dos argumentos que,  a despeito da sua miséria intelectual, obteve cinqüenta mil leitores, com cujos reflexão e discernimento não contou nem deles necessitava. Daí a freqüência com que generaliza falsamente, com que recorre a simplismos, a insensatezes, a sofismas, com que argumenta aquém de um certo grau de racionalidade.

O poder de emocionar superou o de raciocinar, mesmo substituiu-o.

O seu êxito deve-se também  a que ele compagina-se com a mentalidade instalada no Brasil hoje: pauta-se o “Preconceito lingüístico” por uma militância política de combate aos preconceitos, à exclusão social, ao elitismo, à  opressão de classes, conceitos que um perseverante esforço de inculcamento converteu em senso comum do brasileiro médio e cujos méritos não vem a propósito analisar.

Tal esforço foi e é inspirado em Antonio Gramsci, para quem a atividade intelectual não deve servir à busca do Saber, porém a fins políticos. Há décadas no Brasil verifica-se uma divulgação reiterada daquelas premissas, por meio dos mais variados canais, a ponto de haver-se constituído um padrão de pensamento delas derivado que tornou as pessoas altamente receptivas a qualquer  discurso que, direta ou indiretamente, as observe.

Ora, o opúsculo em foco vai atuar sobre este senso comum. Ele convence a quem já se encontra predisposto a deixar-se convencer, ao invés de persuadir o leitor pela verdade dos seus argumentos, origem da péssima qualidade destes.  Extremamente circunstancial, sua aceitação decorre da  mentalidade da qual depende e fora da qual seria analisado criticamente, com o uso da inteligência racional, ao invés de ser aceito, como o tem sido, à guisa de expressão de verdades consensuais. É, pois, um livro de época,  que transmite verdades transitórias.

A sua aceitação por amplas camadas de leitores não lhe atesta a veracidade intrínseca, porém apenas revela o estado espiritual do homem médio contemporâneo no Brasil, estado cuja alteração, modificando-lhe os condicionalismos intelectuais, provocará uma reavaliação das suas doutrinas, quero dizer, um seu exame fora dos consensos vigentes. Será quando os seus leitores abismar-se-ão com a credulidade dos  que conquistou e desmascararão o que, ao fim e ao cabo, representa um caso de embuste intelectual.

O resultado de tudo isto só pode ser o do espetáculo atual da decomposição do idioma, em que o brasileiro sabe-o mal  porque  faltam-lhe escolarização e  leitura, e porque quando lê, lê “Preconceito lingüístico” e lhe perfilha as doutrinas.

Sentindo-se a encarnação da gramática “verdadeira” , “do português do Brasil”, crendo-se livre de preconceitos,  cada autor escreverá como lhe aprouver, sem mais critério que o da imitação do que assimilou do ambiente. Em breve originar-se-ão tantas gramáticas quantos forem os escrevinhadores e portanto literaturas compreensíveis apenas nos limites de tempo e lugar em que  vigorava a ordem gramatical do autor. Haverá guetos lingüísticos, que excluirão ainda mais os excluídos: já afastados da norma culta, tornar-se-ão limitados na compreensão do que escrever-se fora do seu gueto, sofrendo assim um novo e mais odioso prejuízo.       

Além disto, agravar-se-á a má qualidade da redação em geral. Produções acadêmicas, petições judiciais,  mensagens eletrônicas,  anúncios comerciais, traduções de livros,  discursos oficiais, matérias  jornalísticas, em tudo perder-se-á, mais do já se perdeu, a noção da beleza e da elegância da forma, o rigor da concepção,  a certeza da expressão e da compreensão. Prevalecerão a fealdade, a inépcia, a incapacidade.

Desaprendendo o brasileiro o que lhe pertence, o vernáculo, aberto um vazio na sua capacidade comunicativa, assimilará as formas do inglês,  graças a cuja aquisição, gramaticalmente correta, prevalecem já na sua sintaxe e no seu vocabulário a ponto de, vezes muitas, falarmos inglês em português.

Dentre as várias preocupações expressas por “Preconceito lingüístico”, não se encontra a mais mínima relativa à instrução popular, perante a qual, ao contrário, prevalece um silêncio tenebroso de indiferença consumada.

Nenhuma palavra pela educação, por mais e melhores escolas, pela dignificação do magistério, por melhores salários para o professorado; nenhuma indignação frente ao analfabetismo no Brasil, nenhuma inquietação face ao mísero índice de leitura dos brasileiros, nenhum apelo aos governantes, nenhuma postulação em favor da intensificação das políticas educacionais, o que seria de todo em todo pertinente em um livro que se confessa político (página 9).

Longe de fortuita, semelhante apatia  é necessária ao êxito do livro, que serve-se da escassa qualificação intelectual dos brasileiros e mesmo dela depende: em primeiro lugar, pois quanto menos culto, esclarecido  e capaz de pensamento autônomo, que o apetreche para discernir entre a verdade e a mentira, entre o conhecimento e a sua instrumentalização política, tanto menos os leitores de “Preconceito lingüístico” serão capazes de lhe desmascararem os  sofismas e a  miséria intelectual.

Em segundo lugar, quanto maior a incultura, a desinstrução, a falta de escolas, o desdém pela leitura, a desmotivação dos professores, a indisciplina escolar, a repetência, o trabalho infantil, tanto mais escassos serão a compreensão e a interiorização da norma culta; tanto maior será o distanciamento entre ela e as “variedades” coloquiais, tanto mais diversificadas serão estas e, de conseqüência, tanto mais abundantes  as supostas vítimas dos preconceitos, da  alegada exclusão, da proclamada “aplicação autoritária, intolerante e repressiva que impera na ideologia geradora do preconceito lingüístico”(página 10), tanto mais haverá a quem persuadam as doutrinas de “Preconceito lingüístico” e com tanto mais convicção quanto mais intensa a natureza emocional e panfletária com que elas se propaguem.

Convém ao “Preconceito lingüístico” um povo tão fracamente instruído quão possível, para assegurar-se um público leitor proporcionalmente abundante na quantidade e crédulo na qualidade do seu convencimento. Por isto, muito mais do que demagógica e populista, esta é uma obra odiosa,  que engana aos incapazes de perceberem que são enganados e que os mantém no engano para mais e melhor os enganar.

Uma interrogação

Quanto tempo, quanta confusão, quanta estupidez, quanta mediocridade serão necessários para que a sociedade brasileira distinga entre o que a engrandece de fato e o que a rebaixa, entre a mistificação e o progresso da sua gente e da sua cultura ?

O mito do preconceito lingüístico
por José Maria e Silva em 14 de novembro de 2002

Parte I

Rodapé para um golpista da língua

Se houvesse um Código de Ética do Magistério, o sociolingüista Marcos Bagno, autor do famigerado Preconceito Lingüístico, deveria ter sua licença de professor cassada em caráter de urgência — ele mesmo confessa que engana seus alunos e discípulos

“Peço simplesmente aos leitores e leitoras que meditem
sobre essa situação que tanto me angustia: homenagear com um
livro pessoas que jamais poderão lê-lo. Isso explica, decerto,
a grande dose de indignação que em certos momentos passa
à frente da reflexão científica serena e me faz assumir o tom
apaixonado de quem não tolera nenhum tipo de intolerância.”

Da Cabeça de Bagno

O mitos da cabeça de Bagno

 

Mito nº 1: “A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente.”

Mito nº 2: “Brasileiro não sabe português. Só em Portugal se fala bem português.”

Mito nº 3: “Português é muito difícil.”

Mito nº 4: “As pessoas sem instrução falam tudo errado.”

Mito nº 5: “O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão.”

Mito nº 6: “O certo é falar assim porque se escreve assim.”

Mito nº 7: “É preciso saber gramática para falar e escrever bem.”

Mito nº 8: “O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social.”

 

Por vezes, gostaria que minhas palavras fossem punhos e que delas saíssem socos. Mas peço simplesmente aos leitores que meditem sobre essa situação que tanto me angustia: usar a deferência dos argumentos contra pessoas que jamais poderão compreendê-los. Uns, porque lhes falta inteligência. Outros, porque parece lhes faltar caráter. Isso explica, decerto, a minha enorme, incendida, angustiada fúria, que, entretanto, jamais passa à frente da reflexão — apenas se deixa cavalgar por ela, em respeito às rédeas da inteligência. Essa fúria volta e meia é desencadeada pelo excesso de tolices que leio nos jornais a respeito de temas relativos à educação.

Há pouco tempo, matéria de um jornal local (O Popular) trazia o título “Melhora nível de redações no vestibular”. Já no segundo parágrafo da referida matéria, percebi que ela não merecia nenhum crédito. Uma das professoras entrevistadas, depois de dizer que “tem havido uma melhora impressionante na produção textual” dos alunos, completava: “Embora ainda exista muito clichê e casos em que o candidato se prende demasiadamente à fórmula — apresentação, desenvolvimento e conclusão —, em detrimento do conteúdo”. Ora, o que se pode esperar de um aluno que não se prende a essa fórmula eficaz e comum de exposição de idéias? Que ele seja um paradigmático Guimarães Rosa? É óbvio que se um aluno normal recusa o sintagmático princípio-meio-e-fim de um texto, ele deve ter a raríssima genialidade de reinventá-lo, caso contrário irá incorrer no misto de puerilidade e esquizofrenia da literatura que lhe é apresentada por modelo — como o livro A Friagem, de Augusta Faro, elogiado pelo jornalista pelo brilhante Roberto Pompeu de Toledo, mas paradigma da subliteratura local que infesta os vestibulares goianos.

Entretanto, o absurdo da pedagogia moderna escancarado na reportagem não se limita a essas sandices. Vai muito além. Outra professora ouvida na matéria afirmou: “A exigência do domínio da língua culta é preconceituosa. Afinal, nem todos têm acesso a ela”. É espantosa essa capacidade pueril que, hoje em dia, qualquer pessoa — não só professores primários mas até seus alunos — tem de duvidar da civilização a que pertence, julgando-se maior do que ela com um simples dar de ombros mental. Que obra-prima da humanidade aquela professora escreveu para ter a ousadia de deitar por terra uma língua que ultrapassa em séculos sua efêmera insignificância intelectual? Não sei se é o seu caso, mas muitos professores que estampam a mesma arrogância em face do saber milenarmente acumulado, mal conseguem escrever um bilhete para os pais de seus alunos. De onde vem essa ignorância infinita que, de tão alijada do conhecimento, chega a imaginar que ele não existe?

Infelizmente, não vem da pequena cabecinha dessas honradas professoras de escola pública, dignas do respeito de todos nós, mas da doutrinação que recebem no ensino inframental das faculdades de letras. Nessas usinas de diplomar analfabetos, a norma é — língua portuguesa cada qual tem a sua e Deus que se vire para entender a babel de todos. Essa rebeldia sem causa, fruto da adolescência intelectual de nossos acadêmicos, que só descobrem o caminho das bibliotecas quando ingressam na pós-graduação, já se tornou uma seita, com apóstolos, discípulos e até profetas. Entre os profetas, está Marcos Bagno, doutor em língua portuguesa pela USP, mestre em lingüística, poeta, contista e tradutor. Bagno é autor do livro Preconceito Lingüístico: O Que É, Como se Faz, lançado pela Editora Loyola em 1999 e já com quatro edições em menos de um ano. É essa Bíblia dos sociolingüistas que se vai analisar agora.

A sociolingüística é um ramo da lingüística que estuda Marx. Muitos alunos de letras, por deficiência cognitiva, aderem a ela. Incapazes de alcançar o rigor da ciência, contentam-se em macaqueá-la. Daí o enorme sucesso que qualquer autor minimamente alfabetizado faz entre essa gente da pseudolingüística — que não é outra coisa a marxolingüística praticada pela nova geração de professores das faculdades de letras. Pelo fato de escrever inegavelmente bem, algo cada vez mais raro nas academias, o jovem Marcos Bagno tornou-se uma Marilena Chauí de calças — faz, em letras, o mesmo sucesso que ela faz em filosofia. Os dois têm em comum a eloqüência, o confusionismo e uma indisfarçável vocação para a charlatanice intelectual.

Preconceito Lingüístico, o pop-livro de Marcos Bagno, é falso em todas as suas premissas, mesmo assim, ou por isso mesmo, o autor quer fazer dele o Manifesto Comunista do idioma, enxergando em cada colocação de pronomes uma mais-valia intelectual a extorquir de todo falante o direito de permanecer iletrado. Incapaz de derrubar o sistema e mudar o governo, Bagno incorporou o marxismo desviante que grassa na educação do país e fez-se cavaleiro andante da linguagem a brandir sua espada sociolingüística contra os moinhos de vento da norma culta. Seu fervor pseudolingüístico, que acaba de dar outro manifesto ao mundo, a Dramática da Língua Portuguesa, parece acreditar que a instauração do Reino de Marx na Terra vai depender de se enforcar o último capitalista nas tripas do último gramático.

Bíblico, Marcos Bagno inventou até um decálogo para sua religião, criativamente chamado de “Dez Cisões”, e sustenta sua fé sociolingüística no combate a oito pecados capitais — os preconceitos lingüísticos, isto é, os baraços e cutelos com que a norma culta do idioma tiraniza os falantes da língua portuguesa e contribui para a injusta divisão do mundo entre milionários e miseráveis. Entre os oito mitos sobre a língua portuguesa que Marcos Bagno combate, pelo menos três, o 2º, o 6º e o 7º, só existem na sua cabeça; outros dois, o 3º e o 4º, existem de fato, mas não pelas razões que ele imagina; e um deles, o 5º, é absolutamente inócuo, sendo de admirar que alguém perca tempo em lhe dar combate. Restam dois “mitos”, o 1º e o 8º, que não são mitos, mas constatações a respeito do português, por sinal, benéficas para seus falantes.

Como se vê, Marcos Bagno, que se apresenta arrogantemente como cientista da língua, não alcança sequer o nível da falácia, porque a falácia é apenas a contraface da lógica, não a sua negação absoluta, como o obscurantismo e a irracionalidade que alicerçam o livro Preconceito Lingüístico o são. A capa deste livro de Marcos Bagno traz uma fotografia de seus sogros pobres, lavradores analfabetos a quem ele dedica a obra. É a partir deles que Bagno justifica sua “grande dose de indignação” contra todas as formas de preconceito. E, assumidamente de esquerda, começa por denunciar (citando Maurizzio Gnerre) um dos mais graves “preconceitos” derivados do “mito da unidade lingüística do Brasil” — o de que a Constituição é redigida na língua-padrão, “que só uma parcela pequena de brasileiros consegue entender”. Taxativamente furioso, Bagno denuncia: “A discriminação social começa, portanto, já no texto da Constituição”.

Segundo o próprio Bagno confessara na introdução do livro, a razão de sua vida intelectual é a luta apaixonada contra as discriminações. Logo, a única coerência possível de sua parte seria a exigência de que a Constituição do país abandonasse a língua-padrão e se multiplicasse em tantas versões quantas fossem as necessidades particulares dos falantes da língua portuguesa no Brasil. Entretanto, Bagno faz o contrário e, em vez de manter a coerência, sai pela tangente: “É claro que Gnerre não está querendo dizer que a Constituição deveria ser escrita em língua não-padrão”. Ora, de duas uma: ou Bagno, contrariando o que dissera linhas antes, aceita que a Constituição deve continuar sendo preconceituosa, discriminadora, excludente, ou, então, ele resolveu trair, um parágrafo depois, a causa maior da sua vida declarada um parágrafo antes, deixando que a lei continue discriminando.

À primeira vista, parece apenas um caso de inconsistência intelectual do “cientista”. Mas o que se lê a seguir faz desconfiar de uma distorção proposital do militante. Intuitivamente, Marcos Bagno sabe que romper com a objetividade necessária à lei para cingi-la à subjetividade inevitável dos falantes seria soterrar a Justiça num tribunal de babel. Por isso, ele escreve como quem desconversa, chegando a pensar que o leitor atento vai aceitar sua ressalva frouxa como negação de uma afirmação taxativa. O sujeito é tão insidioso que, ao dizer que ninguém está advogando que “a Constituição deveria ser escrita em língua não-padrão”, começa essa ressalva com a expressão “é claro”, para desarmar de imediato o leitor, levando-o pensar que o que se diz adiante é tão óbvio que sequer merece exame, quando, na verdade, trata-se de um pensamento incompleto, que contradiz completamente um pensamento anterior mas não apresenta suas razões, enquanto o outro apresentava as dele. Com essa desconversa, típica de todo o livro, Bagno fica isento de explicar a grave contradição em que incorre.

Apesar disso, Marcos Bagno se julga uma grande autoridade científica, tanto que não se peja de citar-se a si mesmo: “Como costumo dizer, o que habitualmente chamamos de português é um grande ‘balaio de gatos’, onde há gatos dos mais diversos tipos: machos, fêmeas, brancos, pretos, malhados, grandes, pequenos, adultos, idosos, recém-nascidos, gordos, magros, bem-nutridos, famintos etc. Cada um desses ‘gatos’ é uma variedade do português brasileiro, com sua gramática específica, coerente, lógica, funcional”. Bagno acaba de nos descrever o primeiro caso, na história da humanidade, de “recém-nascidos” com “gramática específica, coerente, lógica e funcional”, falando igual ao Aurélio tão logo responde à palmada do médico com um articulado “ai!”.

Depois dessa licenciosidade poética, inadmissível num sujeito que consumiu verbas públicas na graduação, no mestrado e no doutorado, o contribuinte que sustentou Bagno por esse tempo mínimo de oito anos ainda tem que aturar seu preconceito contra os pobres. Segundo ele, são as “graves diferenças de status social que explicam a existência, em nosso país, de um verdadeiro abismo lingüístico entre os falantes das variedades não-padrão do português brasileiro — que são a maioria de nossa população — e os falantes da (suposta) variedade culta, em geral mal definida, que é a língua ensinada na escola”.

Ora, como é que Marcos Bagno explica a caudalosa tradição de pobres bem falantes (e bem escreventes) no Brasil, que vai de Machado de Assis a Patativa do Açaré, ambos sem passar pela escola formal? Será que Bagno nunca foi capaz de perceber que os nordestinos, apesar da sua fome atávica, nunca tiveram problemas com a língua e é de lá que têm saído muitos dos nossos maiores escritores? Não é entre os nordestinos famintos que viceja uma literatura de cordel altamente sofisticada, com um padrão lingüístico muito mais elevado do que o da maioria dos professores da UFG e da USP juntos? Os profetas bíblicos (homens que precisavam da palavra como ninguém e a manejavam melhor que todos) não vinham sempre das classes mais pobres do mundo hebraico, como vaqueiros, pastores, trabalhadores rurais?

Cumpre ressaltar que o cordel nordestino, literatura de excluídos, sempre foi altamente valorizado — tanto pelos próprios nordestinos, que viam em seus repentistas os verdadeiros sábios da tribo, quanto pela gente das grandes cidades, inclusive os políticos, desejosos de ver seu nome na boca dos cantadores. Essa gente esfomeada do Nordeste, grande parte analfabeta, tendo que decorar seus decassílabos heróicos, à moda de Camões, são a prova de que não existe abismo lingüístico determinado pelas diferenças de classe. E se por acaso a miséria oprime a fala, abastardar a fala não erradica a miséria — radica a desigualdade.

O Mito nº 2 atacado por Marcos Bagno, o de que “brasileiro não sabe português e que só se fala bem português em Portugal”, é uma cantilena de Preconceito Lingüístico: O Que É, Como se Faz. Bagno diz que a norma culta no Brasil “é presa a um ideal lingüístico inspirado no português de Portugal, nas opções estilísticas do passado, nas regras sintáticas que mais se aproximem dos modelos da gramática latina”. Deslavada mentira! Como demonstrou Osman Lins, no insuperável Problemas Inculturais Brasileiros, desde a década de 60 que clássicos como Machado de Assis já tinham desaparecido dos livros escolares, dando lugar a autores estilisticamente simplistas, como Orígenes Lessa. E, na década de 70, esse desaparecimento dos clássicos do século passado se acentua e eles passam a ser substituídos pela quadrinização dos livros didáticos, magistralmente ridicularizada por Osman Lins, quando ironiza as “Vírgulas Falantes”.

Há quem, obtusamente, possa não ver relação entre uma coisa e outra, alegando que Bagno não é contra os clássicos, tanto que escreveu um Machado de Assis para Principiantes; mas a relação é óbvia e só não a percebe quem é incapaz de um silogismo simples. Ora, se houvesse mesmo os mitos de que só se fala português em Portugal, que os legítimos representantes da norma culta são os escritores e que só se pode falar como eles escrevem, é evidente que a escola não seria a primeira a abandonar os clássicos já nas décadas de 60 e 70, como fez, influenciada pelo advento da televisão. E a escola tem mudado para pior. Substituindo a quadrinização denunciada por Osman Lins pelo compartimentalismo inspirado na linguagem do CD-Rom, os livros didáticos aboliram de vez os clássicos e a norma culta como padrões de linguagem, substituindo-os pelos piores textos modernistas (como os de Oswald de Andrade) e por matérias de jornal. O Machado de Assis que ainda se lê na escola não é o da linguagem castiça, mas o dos triângulos amorosos. Os livros didáticos de maior sucesso na escola pública só costumam chamar a atenção do aluno para a linguagem de uma obra literária quando ela segue o paradigma modernista da subversão gramatical.

É no combate ao Mito nº 4 (“As pessoas sem instrução falam tudo errado”), que Marcos Bagno começa a revelar, a partir de sua própria cabeça, os preconceitos lingüísticos que projeta na sociedade. Depois de afirmar que a troca do “l” pelo “r” nos encontros consonantais, como em Craudia, chicrete, praca, broco, pranta, é “tremendamente estigmatizada”, o que o deixa possesso, o sociolingüista tenta provar, “cientificamente”, inclusive com Camões, que essa pronúncia deve ser aceita pela escola, como uma variante lingüística dos “brasileiros falantes das variedades não-padrão”, a “classe social desprestigiada, marginalizada, que não tem acesso à educação formal e aos bens culturais da elite”, para quem a fonética da norma culta é “estrangeira”.

Além do absurdo de achar que todo pobre ou analfabeto troca o l pelo r, o que é absolutamente falso, Marcos Bagno ainda tem a desfaçatez de afirmar que, no caso dos “falantes da norma culta urbana”, das “pessoas escolarizadas”, que enfrentam o mesmo problema, “trata-se realmente de uma dificuldade física que pode ser resolvida com uma terapia fonoaudiológica”. Quer dizer, se o filho do lavrador entra na escola e fala pranta, a professora não deve corrigi-lo nem mandá-lo para a fonoaudióloga, caso não consiga superar essa pronúncia — ele deve continuar prantado na própria insuficiência lingüística. Agora, se for o filho do Bagno ou outro privilegiado falante da elite que faça essa troca, aí, sim, o governo deve pagar-lhe, correndo, um tratamento fonoaudiológico. Se as massas tivessem a autonomia que os sociolingüistas lhes atribuem, mandariam Bagno prantar fava com essa sua estranha igualdade.

Não é de estranhar que Marcos Bagno veja em todo pobre um limitado falante do idioma. O Projeto Censo, uma das grandes pesquisas sociolingüísticas que ele julga referenciais, “investiga o uso da língua no Rio de Janeiro nas classes sociais não-cultas (isto é, pessoas que não cursaram uma universidade)”, segundo palavras textuais do próprio Bagno. Por esse critério, o jornalista Paulo Francis, se fosse vivo, seria entrevistado para a pesquisa, classificado como “não-culto” por só ter o 2º grau completo.

O explícito preconceito de Bagno contra a inteligência dos pobres se completa no seu Mito nº 6 (“O certo é falar assim porque se escreve assim”). Diz Bagno que as escolas querem “obrigar o aluno a pronunciar do jeito que se escreve” e ressalva: “Seria mais justo e democrático dizer ao aluno que ele pode dizer bunito ou bonito, mas que só se pode escrever bonito, porque é necessária uma ortografia única para toda a língua, para que todos possam ler e compreender o que está escrito”. Por analogia, será também “justo e democrático” que o professor diga ao menino da roça que ele pode dizer prantar, se quiser, mas só pode escrever plantar devido à necessidade de que outros compreendam o que escreveu. Com isso, mais uma letra passa a ter dois sons na língua, aumentando a esquizofrenia fonética, que tanto preocupa Bagno.

Mas esse sexto “mito” de Bagno, a exemplo do quinto, sequer mereceria comentário — é absolutamente falso e só existe em sua cabeça. Nenhum professor cobra do aluno uma pronúncia idêntica à escrita, contrariando a fala corrente em seu meio. Uma professorinha goiana, mesmo se tiver a felicidade de nada saber de sociolingüística, jamais exigirá de um aluno seu que fale ou leia “A casa Maria” em lugar de “A casa di Maria”; pelo contrário, enquanto o aluno continuar lendo o de fechado, ela saberá que ele ainda não adquiriu fluência na leitura, porque não se despregou das letras e as soletra em vez de lê-las.

Abundam no livro Preconceito Lingüístico falsidades do gênero. Ainda durante o combate ao suposto Mito nº 6, Marcos Bagno afirma que “a gramática tradicional despreza totalmente os fenômenos da língua oral, e quer impor a ferro e fogo a língua literária como a única forma legítima de falar e escrever, como a única manifestação lingüística que merece ser estudada”. E cita como exemplo a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, um clássico do gênero, que abona seus tópicos gramaticais com frases retiradas das obras literárias.

Para Marcos Bagno, essa obra de Celso Cunha “só pode ser consultada por quem tiver dúvidas no momento de escrever um texto literário”, uma vez que, segundo seu tosco julgamento, ela não aborda “fenômenos característicos de outras normas escritas, como a jornalística ou a da produção científica, muito menos os fenômenos típicos da língua falada”. Ora, se tiveres essa gramática em casa, leitor ou leitora, experimenta abri-la em qualquer página. Verás que as frases retiradas dos livros literários para análise gramatical não podem, em sua maioria, ser consideradas literárias.

O livro está cheio de frases como a que se segue: “Aqui não passa ninguém”. Trata-se de uma frase do escritor português Fernando Namora, ilustrando uma lição sobre advérbio. Mas o que ela tem em si de literária, de tão especificamente estética, que não possa ser útil a quem queira escrever um recado para afixar numa porta em Goiânia, Lisboa ou Luanda? Não é o fato de usar texto literário que fará uma gramática ser exclusiva de escritores. Se fosse assim, deveria haver uma gramática específica para cada segmento social: uma para advogados, outra para médicos, esta para engenheiros, aquela para historiadores.

Não há um fosso entre a língua dos escritores e a dos demais segmentos da elite intelectual, muito menos entre a fala deles e a fala comum. Marcos Bagno comete mais uma mentira deslavada quando diz que Celso Cunha não trabalha “outras normas escritas” nem com “fenômenos típicos da língua falada”. Será cinismo ou idiotice o que impede esse pseudolingüista de ver que as obras literárias — mais do que qualquer outra manifestação lingüística — são as mais representativas dos vários registros de fala da sociedade? Por exemplo: o estro de Euclides da Cunha dialoga de igual para igual com a tese científica; a secante de Rubem Fonseca é um recorte do mais puro jornalismo; já a crônica de Carlos Drummond tem o vívido sabor da língua falada.

Além disso, nos textos literários aproveitados por Celso Cunha há diálogos, e esses diálogos reproduzem fenômenos típicos da linguagem oral. E são textos que vão de clássicos do romantismo português e brasileiro a autores contemporâneos como Adonias Filho ou Lins do Rego. Sem contar que o “tradicional” Celso Cunha é infinitamente mais progressista do que o “revolucionário” Marcos Bagno — em sua gramática, Cunha fez questão de se utilizar de textos literários portugueses, brasileiros e africanos (grifo meu). Ora, se dependesse do quixotesco marxolingüista da USP, os povos africanos, que muito precisam do português como língua de cultura, seriam completamente abandonados por nós. Os falantes lusófonos da África não cabem no brasileirês da sociolingüística, porque, numérica e economicamente insignificantes, são desprezíveis para a cartografia lingüística de Marcos Bagno.

O Mito nº 7 também não mereceria comentários se não fosse pelo fato de que é o próprio Bagno quem o desmente, sem perceber. Depois de afirmar que “é difícil encontrar alguém que não concorde” com a idéia de que é “preciso saber gramática para falar e escrever bem”, ele mesmo aponta três escritores de grande sucesso que não concordam com ela — Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade e o próprio Machado de Assis. Aliás, o próprio Bagno reconhece que “os escritores são os primeiros a dizer que gramática não é com eles!”. Será que todos os escritores juntos, do passado e do presente, foram incapazes de convencer uma só pessoa de que não é preciso saber gramática para falar e escrever bem a ponto deixarem surgir esse preconceito? É claro que não. Eis, aí, mais uma confusão da cabeça de Bagno.

O que todo mundo de fato acha — e trata-se de fato, não de mito — é que para falar e, sobretudo, para escrever bem é preciso ler muito. A gramática como verdade já não existe na maioria das escolas. Quando muito, o aluno é instado (mas não obrigado) a decorar algumas inócuas regras gramaticais, que depois lhe são cobradas acriticamente, em provas de marcar com X. Aprende-se o português nas escolas públicas de duas maneiras: ou escrevendo-se como se quer, sem regra alguma, salvo a do umbigo; ou mediante a reprodução de fórmulas esclerosadas, mas adredemente facilitadas para que o aluno não seja reprovado depois. O primeiro modo, especialmente nos ciclos básicos da escola pública, é o mais corrente, por força do construtivismo. O aluno é levado a produzir seus próprios textos (e estudar segundo eles), mesmo quando não é capaz de assinar o nome, porque se considera autoritarismo colocá-lo em contato com os bons autores do idioma.

Mas é no combate a um fato que toma por mito, o Mito nº 8 (“O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social”), que o marxolingüista Marcos Bagno se revela por inteiro. Bagno chega a ironizar essa verdade: “Se o domínio da norma culta fosse realmente um instrumento de ascensão na sociedade, os professores de português ocupariam o topo da pirâmide social, econômica e política do país, não é mesmo?” Pronto! Marcos Bagno parece ter sido capaz de um silogismo: o domínio da norma culta é instrumento de ascensão social; o professor de português domina a norma culta; logo, é ele quem deveria mandar na sociedade.

Eis um primor da lógica construtivista, haurida na pedagogia-parangolê de uma Ester Grossi, na filosofia charlatã de um Ernildo Stein ou na historiografia oligofrênica de uma Ledonias Franco — uma premissa rota e uma conclusão torta, ambas depondo contra o labirinto mental da cabeça de Bagno. Porque qualquer pessoa sabe que professor de português da escola pública não domina a norma culta satisfatoriamente. Basta examinar o desempenho dos vestibulandos de letras e pedagogia para se constatar que eles obtêm as piores notas, inclusive nas provas de redação e português. Por que será que Marcos Bagno não foi capaz de perceber coisa tão óbvia quanto o sol num meio-dia sem nuvens? Talvez por uma distorção do ambiente em que vive. Na carreira do magistério público, os silogismos se escrevem por premissas tortas: se um professor de português é excelente, vai preparar alunos para o vestibular de medicina; se é sofrível, vira doutor e vai formar professores na graduação de letras.

Apesar de ter-se tornado um ídolo em muitas faculdades de humanas do país, inclusive na Faculdade de Letras UFG, onde os alunos estão fazendo trabalho sobre o livro Preconceito Lingüístico, Marcos Bagno é o avesso do que se pode esperar de um cientista, credencial com que ele gosta de se apresentar ao leitor em suas obras. Recorrendo a um de seus marxolingüistas preferidos, ele afirma taxativamente: “A propaganda da suposta ‘dificuldade’ da língua é, como diz Gnerre no livro já citado, ‘o arame farpado mais poderoso para bloquear o acesso ao poder’”.

Notastes, leitor e leitora, a importância extrema que ele, corroborando Gnerre, concede à língua? Ela — sustenta Marcos Bagno — é o mais poderoso bloqueio de acesso ao poder. Entretanto, é o mesmo Marcos Bagno quem diz: “O domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha todos os dentes, que não tenha casa decente para morar, água encanada, luz elétrica e rede de esgoto”. E Bagno, como se estivesse num palanque do MST, continua por um parágrafo inteiro falando que não adianta a norma culta para quem não tem emprego, é cidadão pela metade ou vive acossado por senhores feudais que lhe tiram a terra para morar. Ora, se “não dominar a norma culta é o mais poderoso instrumento de exclusão do poder”, dominá-la tem que ser — necessariamente — o mais poderoso instrumento de ascensão social.

Por outro lado, Bagno concebe “ascensão social” de um modo muito peculiar: para ele, ascender é dominar — só ascende aquele que alcança o topo. Ora, se uma mulher trabalha como auxiliar de enfermagem num hospital e, com muito esforço, se forma em medicina, é claro que ela ascendeu socialmente, mesmo que não tenha se tornado dona de hospital, coisa que ciência alguma lhe vai garantir se ela não vier de um berço rico. Com a língua é a mesma coisa. Eu, por exemplo, que passei de cozinheiro de hospital a editor de jornal, não tenho dúvida de que ascendi socialmente. Mas, de acordo com Bagno, estou enganado. Eu só poderia dizer que tive uma ascensão social se fosse o dono da Organização Jaime Câmara (a maior empresa de comunicação do Centro-Oeste) e se o Júnior Câmara (seu proprietário) fosse meu empregado, uma vez que creio escrever melhor do que ele.

É possível se conceber uma mente mais tacanha, mais abjeta, mais materialista, mais obcecada em poder e dinheiro do que essa de Marcos Bagno? E pensar que é gente dessa laia que dita a ética nas escolas públicas. Mas nem era preciso contra-argumentar tanto. Basta examinar o mito que desespera Bagno: “O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social” (grifo meu). Como ele próprio afirma, ela é um instrumento, não o instrumento. Se as pessoas acreditassem que a norma culta é o instrumento de ascensão social, aí, sim, seria o caso de Bagno combater o mito. E eu lhe daria razão.

Por fim, Marcos Bagno se desmascara de vez. É ele quem escreve, textualmente, na página 72 de Preconceito Lingüístico: “Valerá mesmo a pena promover a ‘ascensão social’ para que alguém se enquadre dentro desta sociedade em que vivemos, tal como ela se apresenta hoje?” (grifos dele próprio).

Por favor, leitores e leitoras, relede esta frase. Percebeis a extrema gravidade dela? Se houvesse um Código de Ética do Magistério, o pseudolingüista Marcos Bagno (agora ele se revela como tal) teria que ter a sua licença de professor sumariamente cassada. É o próprio Bagno quem assume explicitamente — e por escrito — que, como professor, não está interessado em ensinar nada a seus alunos, mesmo ganhando para isso, porque não é sua intenção emancipá-los para que participem da sociedade que aí está. Ou seja, Bagno quer vê-los na miséria, porque precisa da miséria para manter seu discurso contra o sistema. Já pensaram se os médicos de esquerda, ferozes combatentes da indústria farmacêutica, fossem adotar a ética da cabeça de Bagno? Deixariam morrer seus pacientes infartados para não vê-lo dependente de medicamentos. Só nas ciências humanas se concede título de doutor a um sujeito tão mal resolvido como intelectual e cidadão.

Marcos Bagno é tão confuso que chega a depor contra si mesmo. Eis o que ele diz sobre o seu objeto de conhecimento: “Existe um mito ingênuo de que a linguagem humana tem a finalidade de ‘comunicar’, de ‘transmitir idéias’ — mito que as modernas correntes da lingüística vem tratando de demolir, provando que a linguagem é muitas vezes um poderoso instrumento de ocultação da verdade, de manipulação do outro, de controle, de intimidação, de opressão, de endurecimento”.

Só um doutorzinho da USP, aquele antro de cúmplices que arrastam até hoje um cadáver insepulto com a cara de inocentes, é que tem o despudor, a presunção, a desfaçatez, de chamar de “mito ingênuo” a idéia de que a linguagem humana tem a finalidade de comunicar, de transmitir idéias. Tem cabimento Bagno não perceber que, até para transmitir esse seu arremedo de idéia, esse lodaçal lingüístico que lhe vai pelo cérebro, ele não teve outro recurso senão recorrer à linguagem? Se a tese de Marcos Bagno for estendida a outras instâncias da realidade, será preciso considerar que é um mito ingênuo supor que a água foi feita para saciar a sede, porque ela também afoga; que o alimento foi feito para matar a fome, porque ele também dá indigestão; enfim, que o ânus foi feito para defecar, porque dele também saem “idéias”. Aliás, chego a desconfiar da epígrafe que abre este artigo. Será que Preconceito Lingüístico saiu mesmo da cabeça de Bagno?

— Concordo, leitores e leitoras. Acabo de cometer um grave desrespeito contra Marcos Bagno. No próximo artigo, quando vou demonstrar porque Bagno é um golpista da língua, se tiver de usar os vocábulos ânus e defecar novamente, pedirei licença para substituí-los por seus equivalentes populares. Não pretendo destratar ainda mais o lingüista Bagno, obrigando-o a aturar essa ofensiva norma culta, que ele tanto detesta.

Parte II


Quando a língua se faz regougo

Disfarçando-se de vanguarda da ciência, a sociolingüística de Marcos Bagno não passa de um panfleto pedagógico, que tenciona fazer da língua portuguesa um instrumento de doutrinação política

Enganam-se os cristãos de língua portuguesa — a Bíblia foi psicografada. Ao contrário do que comumente se imagina, a versão portuguesa das Escrituras não foi traduzida pelo protestante João Ferreira de Almeida, mas ditada por seu espírito, muito depois de sua morte. Essa informação bombástica, que pode subverter todos os alicerces da cultura ocidental, é revelada no livro Preconceito Lingüístico: O Que É, Como se Faz (Editora Loyola), do sociolingüista Marcos Bagno, parcialmente analisado em artigo anterior. Ficcionista, poeta, tradutor e doutor em lingüística pela USP, Marcos Bagno, quase de passagem, sem perceber o profundo impacto de sua revelação, afirma, na página 134 do livro: “A primeira tradução da Bíblia para o português, por exemplo, só aconteceu em 1719, por obra de um protestante, João Ferreira de Almeida”.

O espírito do médium Chico Xavier ainda nem sonhava com sua encarnação atual e faltavam quase dois séculos para que o positivista francês Hipólite Leon Denizart Rivail sistematizasse o espiritismo, com o nome de Alan Kardec. Talvez por isso, o trabalho mediúnico de tradução da Bíblia para o português tenha passado despercebido. Mas não há dúvida: só pode ter sido o espírito de João Ferreira de Almeida quem ditou essa tradução para um médium em 1719. Porque João Ferreira de Almeida “desencarnara” 28 anos antes: ele morreu em 1691, aos 63 anos. Como poderia traduzir a Bíblia — fisicamente — em 1719?

Em si, esse canhestro erro de Marcos Bagno não compromete a essência de Preconceito Lingüístico, uma vez que o livro não trata de religiões, mas de línguas. Entretanto, ele é um sintoma do labirinto mental da cabeça de Bagno. Se essa informação, em seu todo, é lateral no contexto de Preconceito Lingüístico, o mesmo não se pode dizer da data, “1719”, em relação à informação em si. Uma vez que Bagno tencionava realçar o quanto foi tardia a tradução da Bíblia para o português, precisar uma data sem consultar quaisquer enciclopédias, ou consultá-las de modo apressado, revela um certo despreparo didático-pedagógico para separar o essencial do supérfluo; deficiência que fica evidente quanto ele encrespa com Dad Squarisi, responsável por uma coluna sobre o idioma que é reproduzida em vários jornais do país.

Squarisi utiliza-se de um truque muito usado por todos os professores de português quando querem explicar a voz passiva. Mostra que há duas formas de construir a voz passiva: com o verbo ser (passiva analítica) e com o pronome se (passiva sintética). E, na dúvida entre vende-se casas ou vendem-se casas, ela sugere que se recorra à voz passiva analítica, com o verbo ser (“casas são vendidas”), para se descobrir que, na voz passiva sintética, o correto é vendem-se casas.

Quando vai contestá-la, Marcos Bagno confunde superfícies com profundezas e chama esse recurso de “esfarrapado truque”, desvirtuando completamente o que sugere Squarisi. Ela e as gramáticas normativas jamais disseram que vende-se pode ou deve ser substituído por é vendido que, no fim, o emissor da mensagem terá o mesmo efeito — algo que Marcos Bagno as acusa de fazer. Pelo contrário, é exatamente por saberem do efeito muito maior da voz sintética (vende-se… ou vendem-se…) que as gramáticas se valem do “truque” para explicar como é que se deve escrever a frase. Ou seja, mandam o aluno pensar em casas são vendidas” apenas para que ele perceba porque deve escrever vendem-se casas” e não vende-se casas”.

Para Bagno, essa exigência dos gramáticos é mais um preconceito lingüístico. Porém, que mal existe em levar um falante do idioma a refletir sobre a referida construção, uma vez que ela vai além do aspecto meramente formal do português? Preconceito não é pedir que o aluno o faça, mas imaginá-lo incapaz de refletir sobre isso, deixando que continue escrevendo como aprendeu nas tabuletas do comércio de seu bairro. Preconceito é impedi-lo de estabelecer essas relações importantes entre a ação e seu objeto, algo que lhe vai servir pela vida afora, quando for pensar sobre qualquer fenômeno mais abstrato.

É ainda nessa crítica a Dad Squarisi que o cientista da USP se deixa perder pelo militante de esquerda. Marcos Bagno tenta aprofundar-se numa análise verdadeiramente lingüística e não panfletária do idioma, mas acaba vítima de seu próprio veneno. Ele demonstra que a posição dos elementos num enunciado muda a interpretação de seu significado e, numa argumentação em crescendo, procura provar que, quando se quer dizer que “muitos operários foram demitidos da Ford”, o correto é dizer — na voz sintética — “demitiu-se muitos operários da Ford” e não “demitiram-se muitos operários da Ford”, como preconiza a gramática normativa. Marcos Bagno sustenta que, se o verbo estiver no plural, como no segundo caso, a frase perderá completamente seu impacto e não vai deixar claro que os operários foram demitidos a contragosto — parecerá que pediram demissão, o que esconderia a crueldade de seus patrões.

Aparentemente, Marcos Bagno está coberto de razão. Entretanto, não é ele próprio quem defende o critério pragmático como uma dimensão essencial da análise de um enunciado lingüístico? Pois, sejamos pragmáticos: analisemos esse enunciado não de acordo com esclerosadas normas gramaticais, como diria Bagno, mas segundo os efeitos que ela suscita em seu contexto. Mesmo na linguagem culta de jornais ou universidades, jamais se fala ou se escreve uma frase do gênero começando com o verbo. A ordem normal é sempre a direta: “Muitos operários foram demitidos da Ford”. Se alguém inicia com verbo uma frase assim é porque fala a partir da norma culta, para falantes da norma culta e, ainda por cima, por escrito, muito provavelmente de forma literária e rebuscada. Ora, num contexto desses, escrever demitir-se em lugar de demitiram-se como quer Marcos Bagno, é matar completamente qualquer efeito da frase. Para ouvintes muito cultos e numa situação formal (como esse público a quem obviamente se destina uma frase do gênero), o desvio gramatical será um ruído na mensagem, o que reduzirá sensivelmente seus efeitos. A não ser que Marcos Bagno, ao propor a extinção total dessa diferença, queira fazer o mesmo com todo falante capaz de apreciá-la.

O autor de Preconceito Lingüístico também implica com o acadêmico Arnaldo Niskier por conta de uma observação perfeitamente compreensível. Niskier escreveu: “O sujeito que usa um termo em inglês no lugar do equivalente em português é, na minha opinião, um idiota”. Marcos Bagno comenta: “Ora, se ele mesmo reconhece que o uso de estrangeirismos é a ‘face mais irritante de um país colonizado culturalmente como o nosso’, é injusto chamar de ‘idiota’ a pessoa que é, de fato, uma vítima dessa colonização cultural. Se nosso comércio está repleto de nomes em inglês é porque os comerciantes e os industriais sabem que isso atrai mais o público, que qualquer produto com aparência de estrangeiro tem maior aceitação por parte do consumidor”.

É difícil ler uma coisa dessas sem um frêmito de indignação. O mesmo Bagno que submete a língua ao determinismo econômico, agora submete a economia ao determinismo lingüístico. Qualquer pessoa sabe que — a despeito de outros fatores — o que mais atrai o consumidor é o preço baixo. Até o Carrefour, que tem um público de poder aquisitivo alto, sabe muito bem disso e se um produto de marca não baixa a um preço que ele considera satisfatório, esse produto fica fora das prateleiras. Isso já aconteceu lá com o arroz Cristal e acontece freqüentemente com o Nescafé, uma marca tradicional de café solúvel. As papelarias estão cheias de canetas importadas, com nomes em inglês, mesmo assim a velha Bic continua sendo uma campeã de vendas, a despeito da Lei de Bagno. É que ela reúne baixo preço e qualidade razoável. Das canetas de seu nível é a de mais resistência.

Entretanto, o problema mais grave é o “ético” Marcos Bagno distorcer, mais uma vez, a fala alheia. Bagno sabe muito bem que Arnaldo Niskier não está se referindo aos comerciantes quando diz que usar termo em inglês no lugar do português é ser idiota. Obviamente, Niskier refere-se a jornalistas, economistas, professores universitários, técnicos do governo e outras pessoas do mesmo nível social. Mas Bagno escamoteia esse fato e faz de conta que Niskier está chamando de idiota uma Carolina qualquer do Vila Finsocial que resolve botar na sua confecção o nome de Karollyne’s. Ora, isso é inglês? Não. É língua bárbara, balbucio do escravo ante o senhor. Logicamente não é disso que trata Arnaldo Niskier.

Essa Carolina da Vila Finsocial pode ser — mas não necessariamente — uma vítima da colonização, passível de pena e não de crítica. Mas o que dizer daquele sujeitinho filho de papai, que vai estudar economia em Chicago e volta de lá esnobando inglês com os colegas, enquanto saqueia o Brasil descaradamente? Pode-se chamar de vítima da colonização aquela gente do BNDES que ficava fazendo piadinhas em inglês enquanto leiloava o país? Podem ser chamados de vítimas da colonização os doutores da UFMG, que, recentemente, queriam proibir o uso do português num congresso realizado na própria universidade, infringindo as leis do país? Pode-se chamar vítima da colonização o velho escritor e professor universitário goiano Heleno Godoy, tardio doutorando da USP, que, ao traduzir contos do inglês, exige que as aspas fiquem depois das vírgulas nas citações e diálogos, como se essa forma de colocação das aspas fosse peculiar ao escritor traduzido e ele precisasse evidenciar isso na tradução? Nada disso. Essa gente não é vítima de nada. Nós, brasileiros, é que somos suas vítimas, uma vez que lhes pagamos as bolsas com que estudam fora do país e nada ganhamos em retribuição. Serviçais, eles estão sempre de costas para o Brasil, encarando de frente os Estados Unidos — não como quem o enfrenta, mas como quem se submete a uma espécie de felação cultural.

Um exemplo dessa submissão pode ser encontrado na revista Signótica (ano 7, 1985), do curso de letras da Universidade Federal de Goiás. Nela há um artigo todo escrito em inglês do professor Pedro Fonseca, doutor em literatura portuguesa pela Universidade do Novo México e professor do curso de letras da UFG. O artigo examina textos da literatura colonial em busca da representação da imagem feminina. E até mesmo um dos textos estudados, Diálogo das Grandezas do Brasil, atribuído a Ambrósio Fernandes Brandão, o Brandônio, é citado em inglês — oito linhas de citação em inglês. Os autores franceses citados, como Beauvoir e Derrida, também o são em inglês. Qual o sentido disso se esses professores são os primeiros a dizer para o aluno que, de preferência, toda citação em texto científico deve dar prioridade à língua de origem do autor citado? Logo, Beauvoir teria que ser citada em francês e Brandônio em português.

Não por acaso Marcos Bagno é um ferrenho adversário do projeto de valorização da língua portuguesa, apresentado pelo deputado Aldo Rebelo, e, em Preconceito Lingüístico, afirma, taxativamente, que “não adianta bradar contra a ‘invasão’ de palavras [estrangeiras] na língua portuguesa” sem analisar a dependência sócio-econômica do país. Segundo ele, “é querer eliminar os efeitos sem atacar as verdadeiras causas” Entretanto, em todo o seu livro, Marcos Bagno não faz outra coisa senão atacar o efeito (a dificuldade da norma culta) em detrimento das causas dessa referida norma não ser bem aprendida nas escolas (entre elas, as péssimas condições do ensino no país). Bagno usa dois pesos e duas medidas: em relação a seu próprio idioma, prega a guerra contra os efeitos; em relação à invasão do inglês, preconiza que se deixe como está até que o Brasil se liberte do jugo norte-americano.

Mais grave é que o mesmo Bagno que impreca contra a norma culta do português, sob o pretexto de que ela é “elitista”, “branca” e “heterossexual”, louva descaradamente a hegemonia cultural do inglês. Por acaso, o inglês que se impõe ao mundo não o faz por intermédio de sua norma culta — “branca”, “heterossexual” e “ultra-elitista”, porquanto movida a dólar? Só a vesguice materialista explica essa verdadeira unção que Marcos Bagno devota ao poder e ao dinheiro. Pouco depois de não conseguir disfarçar que julga o inglês norte-americano melhor do que os outros porque os Estados Unidos são mais poderosos, Bagno também julga que o português falado no Brasil é o melhor, porque o Brasil é maior e mais forte economicamente do que Portugal. Segundo ele, “quando se trata de língua se deve levar em conta a quantidade”. Ora, se em língua o que conta é a quantidade, por que Bagno não sugere ao MEC que acabe com os programas voltados para a pesquisa e o ensino das línguas indígenas, essas ilhotas perdidas no oceano do português?

Ao ver-se engasgado pela própria incoerência, talvez ocorra a Marcos Bagno desculpar-se com a seguinte afirmação que faz em Preconceito Lingüistico: “Ninguém comete erros ao falar sua própria língua materna, assim como ninguém comete erros ao andar ou respirar. Só se erra naquilo que é aprendido, naquilo que constitui um saber secundário, obtido por meio de treinamento, prática e memorização: erra-se ao tocar piano, erra-se ao dar um comando num computador, erra-se ao falar/escrever uma língua estrangeira. A língua materna não é um saber desse tipo: ela é adquirida pela criança desde o útero, é absorvida junto com o leite materno”. Sob esse prisma, estaria explicada a ojeriza que devota à norma culta de sua língua, enquanto aceita passivamente a do estrangeiro. Mas será que Marcos Bagno está certo ao dizer que “ninguém comete erros ao falar sua própria língua materna”? Se, como afirma Bagno, falar e escrever é como respirar e andar, então, o que faz no currículo escolar a disciplina língua portuguesa se nunca foi necessário introduzir nas escolas as disciplinas andamento e respiração?

Mas também nessa comparação Bagno erra. Até o respirar e o andar podem ser aperfeiçoados, mediante exercícios; aliás, é para isso que existem a ioga e a educação física. Se isso vale para atividades tão pouco modificáveis, como andar e correr (por mais que uma pessoa seja elegante ela não anda de modo muito diferente de outra que não o é), o que dizer da linguagem, que é muito mais artificial do que aqueles dois outros atos, tanto que aparecem muito depois deles na história da espécie? Quando a língua é comparada à respiração na cabeça de Bagno, processa-se, ali, uma redução do estatuto humano — a linguagem falada se torna uma característica animal e o homem volta à condição de símio. E se a fala já é um elemento da cultura, o que dizer da escrita, completamente artificial? Entretanto, Marcos Bagno sustenta que nenhum falante erra em sua língua materna, nem mesmo ao escrever. Como ele classifica, então, a inscrição que se segue?

“NO DINA VIT DO DE ABINI D DONI COME KICNA DO NO BA BASINÚ TERÃ MLAZSA”

A inscrição acima não é nenhum arremedo de língua eslava; foi extraída da revista Educação, de julho 2000, e traz a seguinte legenda ao lado da foto do menino que a escreveu: “Esta junção de letras foi escrita por Welton, 11 anos, aluno da quarta série, a partir do ditado: ‘No dia 22 de abril, comemoramos os 500 anos do nosso Brasil, que é uma terra maravilhosa’”.